Toda manhã João Roberto entrega folhetos no centro de Porto Alegre. Do outro lado da rua ele vê o prédio antigo do jornal Correio do Povo. João Roberto decidiu ser jornalista. Com quase 20 anos, ele tem muito a dizer. Mas nunca teve a chance nem o dinheiro pra estudar até conseguir entrar na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Recentemente viu no Jornal Nacional que não precisa mais fazer faculdade para ser jornalista. João Roberto ficou contente, vai poder dizer tudo o que sempre quis. E como sempre trabalhou com texto, pelo menos o dos folhetos que traz da gráfica, espera se dar bem – não que jornalista ganhe bem, pelo contrário; ele sabe disso.
João sabe que no Brasil, assim como em outros lugares do mundo, tem direito a falar o que quiser e a pensar como quiser. Mas não tem espaço, não é ouvido – e disso ele reclama. Cansou de mandar cartas para a redação. Enquanto isso, o Jornal do outro lado da rua, a TV, a Rádio, expressam a ideia de alguns e alcançam estados inteiros. Mas João não precisa de tanto, ficaria contente de ser lido só na Rua da Praia.
A diferença se dá no dinheiro. Jornalismo virou atividade econômica. As empresas lucram, acham espaços para os anúncios até sobre as fotos, e pagam mal a quem escreve e faz o jornal. Jornalistas, muitos com diploma na mão – ou guardado num envelope – ficam desmotivados e não escrevem mais do mesmo jeito. A categoria não é tão unida, muito menos regulamentada. João não está preocupado com isso, sua atividade, pelo menos por enquanto, ainda é “humanista”. Um jornalismo como dever social.
Em parceria com o sujeito da gráfica a Folhinha da Praia saiu. Um anunciozinho daqui, outro dali, e, paga-se a impressão. Sem falar que anúncio de jornal dá mais dinheiro que folheto pra distribuir na rua.
— João Roberto, jornalista. Muito prazer.
Os dias passam e a Folhinha ganha leitores, distribuição gratuita – os anúncios dão conta disso; além de pagar a impressão João ainda tira uns trocados no fim do mês. E ele escreve bem, até recebe um olhar desconfiado dum editor da Grande Mídia – que continua puto por não precisar mais de diploma para exercer a profissão; teme que o salário possa diminuir por causa da concorrência iletrada.
Mas o mercado de trabalho mudou. Tudo muda. João, jornalista, sem cursar jornalismo, é convidado a trabalhar num jornal “de verdade”. Ele recusa: — Pagavam mal porque não fiz faculdade. Estou melhor assim.
João continuou com a sua Folhinha. Largou os folhetos. O editor desconfiado seguiu como editor e seu salário continua igual. O jornal onde ele trabalha continua contratando jornalistas que cursaram faculdade – e exige cada vez mais. A decisão de não exigir o diploma para o exercício do jornalismo fez com o que os jornalistas graduados retomassem o gosto pela profissão e uniu a classe. Voltaram a fazer o que sempre quiseram e continuam conquistando novos espaços. Nos impressos e eletrônicos – até mesmo nos blogs –, vemos agora um jornalismo motivado, com mais informação do que aspas.
E o povo, assim como João Roberto, tem agora seu espaço livre do poder econômico e das estranhas relações da grande mídia. A Folhinha do João também embrulha peixe no fim de semana.
30 de jun. de 2009
29 de jun. de 2009
Do ensino de jornalismo para gente nova
É possível, e bem provável, que os que hoje ocupam as salas de aula da faculdade de Jornalismo tenham tido uma formação que não lhes ensinou a pensar. O ensino fundamental no Brasil ainda não forma livres-pensadores – ensina-se mais a crer do que a questionar.
Quando chegam ao ensino médio a realidade é outra: o vestibular. As preocupações com a tão difamada prova duram três anos e então chegam à universidade – por sinal, jovens demais. São considerados jovens demais, porque espera-se que com a idade as pessoas se interessem por buscar o conhecimento – e não só navegar por informações. E então, nas salas de aula, são pessoas cheias de emoção e, às vezes, vazias de razão e de lógica. Estas são questões importantes no jornalismo e como nem todos foram formados com a presença delas, poderão passar por constrangimentos.
Distinguir as variações da história e refletir sobre as verdades apresentadas deve ser natural do jornalista. É mais ou menos como responder a uma questão aparentemente simples: por ser simples na aparência, hesitamos; ao hesitar, pensamentos algumas vezes antes de responder e então, ficamos mais próximos da resposta errada.
Se a lógica fosse natural a resposta assim seria também – sem medo ou preocupações. Essas situações vêm de questões humanas – apresentadas na filosofia, sociologia, antropologia –, muitas delas ignoradas nos primeiros anos do curso, por pessoas jovens demais. Possivelmente por não terem sido estimulados a pensar, buscam o que já está feito. O que leva alguns àquela que podemos chamar de “síndrome do ctrl-c, ctrl-v”.
Após passarem pelas disciplinas de Psicologia, Sociologia e Epistemologia – desde que tenham aprendido de verdade e não apenas presenciado as aulas – deveriam ser estimulados a ler obras que mostrem as versões da realidade e como pode-se conviver com elas. Um bom exemplo e adequado a esta profissão é Como vencer um debate sem precisar ter razão, de Arthur Schopenhauer, pois passarão por situações duvidosas com os mais variados tipos de pessoas. Este e outros clássicos de grandes autores são importantes por mostrarem situações humanas reais e seus temas seguem atualizados. Outros autores como George Orwell e Hunter Thompson – de tempos mais recentes – também são relevantes para se conhecer estilos literários. Porém, estes autores não só apresentavam estilos como também conteúdo em seus escritos.
A questão do conteúdo está diretamente ligada à paixão do jornalista por sua profissão. Por ser passional, pode inconscientemente fugir da neutralidade esperada – da imparcialidade do jornalismo. Bertrand Russell disse em seus Ensaios Céticos que as pessoas são mais passionais que racionais, e, por isso, agem da maneira que agem. Portanto, seria interessante considerar um certo ceticismo no trabalho jornalístico. Um ceticismo realista, diferente daquele ceticismo chato que duvida de tudo.
Russell propôs mais dez mandamentos ao mundo, que podem ser aplicados também ao jornalismo:
1. Não tenhas certeza absoluta de nada.
2. Não consideres que valha a pena proceder escondendo evidências, pois as evidências inevitavelmente virão à luz.
3. Nunca tentes desencorajar o pensamento, pois com certeza tu terás sucesso.
4. Quando encontrares oposição, mesmo que seja de teu cônjuge ou de tuas crianças, esforça-te para superá-la pelo argumento, e não pela autoridade, pois uma vitória dependente da autoridade é irreal e ilusória.
5. Não tenhas respeito pela autoridade dos outros, pois há sempre autoridades contrárias a serem achadas.
6. Não uses o poder para suprimir opiniões que consideres perniciosas, pois as opiniões irão suprimir-te.
7. Não tenhas medo de possuir opiniões excêntricas, pois todas as opiniões hoje aceitas foram um dia consideradas excêntricas.
8. Encontres mais prazer em desacordo inteligente do que em concordância passiva, pois, se valorizas a inteligência como deverias, o primeiro será um acordo mais profundo que a segunda.
9. Sê escrupulosamente verdadeiro, mesmo que a verdade seja inconveniente, pois será mais inconveniente se tentares escondê-la.
10. Não tenhas inveja daqueles que vivem num paraíso dos tolos, pois apenas um tolo o consideraria um paraíso.
Para um novo jornalista, os mandamentos acima serão úteis no dia-a-dia da profissão. Ao lidar com jornalistas mais experientes, por exemplo, busque mostrar a razão de você pensar como pensa – só não tente pensar como eles pensam. Seja um livre-pensador.
Sugestões:
BALZAC, Honoré. Os Jornalistas. Rio de Janeiro. Ediouro, 1999.
DESCARTES, René. Discurso do Método. Porto Alegre. L&PM, 2005.
ERASMO. Elogio da Loucura. Porto Alegre. L&PM, 2003.
FORTES, Leonardo. Jornalismo Investigativo. São Paulo. Contexto, 2005.
NOBLAT, Ricardo. A arte de escrever um jornal diário. São Paulo. Contexto, 2005.
ORWELL, George. Na pior em Paris e Londres. São Paulo. Cia. das Letras, 2005.
RUSSELL, Bertrand. Ensaios Céticos. Porto Alegre. L&PM, 2008.
SCHOPENHAUER, Arthur. Como vencer um debate sem precisar ter razão. Rio de Janeiro. Topbooks, 2003.
THOMPSON, Hunter S. A grande caçada aos tubarões. São Paulo. Conrad, 2004.
VOLTAIRE. Conselhos a um jornalista. Martins Fontes. São Paulo, 2006.
Publicado às 10:03 (-3 GMT) em Curitiba - PR, Brasil
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Quando chegam ao ensino médio a realidade é outra: o vestibular. As preocupações com a tão difamada prova duram três anos e então chegam à universidade – por sinal, jovens demais. São considerados jovens demais, porque espera-se que com a idade as pessoas se interessem por buscar o conhecimento – e não só navegar por informações. E então, nas salas de aula, são pessoas cheias de emoção e, às vezes, vazias de razão e de lógica. Estas são questões importantes no jornalismo e como nem todos foram formados com a presença delas, poderão passar por constrangimentos.
Distinguir as variações da história e refletir sobre as verdades apresentadas deve ser natural do jornalista. É mais ou menos como responder a uma questão aparentemente simples: por ser simples na aparência, hesitamos; ao hesitar, pensamentos algumas vezes antes de responder e então, ficamos mais próximos da resposta errada.
Se a lógica fosse natural a resposta assim seria também – sem medo ou preocupações. Essas situações vêm de questões humanas – apresentadas na filosofia, sociologia, antropologia –, muitas delas ignoradas nos primeiros anos do curso, por pessoas jovens demais. Possivelmente por não terem sido estimulados a pensar, buscam o que já está feito. O que leva alguns àquela que podemos chamar de “síndrome do ctrl-c, ctrl-v”.
Após passarem pelas disciplinas de Psicologia, Sociologia e Epistemologia – desde que tenham aprendido de verdade e não apenas presenciado as aulas – deveriam ser estimulados a ler obras que mostrem as versões da realidade e como pode-se conviver com elas. Um bom exemplo e adequado a esta profissão é Como vencer um debate sem precisar ter razão, de Arthur Schopenhauer, pois passarão por situações duvidosas com os mais variados tipos de pessoas. Este e outros clássicos de grandes autores são importantes por mostrarem situações humanas reais e seus temas seguem atualizados. Outros autores como George Orwell e Hunter Thompson – de tempos mais recentes – também são relevantes para se conhecer estilos literários. Porém, estes autores não só apresentavam estilos como também conteúdo em seus escritos.
A questão do conteúdo está diretamente ligada à paixão do jornalista por sua profissão. Por ser passional, pode inconscientemente fugir da neutralidade esperada – da imparcialidade do jornalismo. Bertrand Russell disse em seus Ensaios Céticos que as pessoas são mais passionais que racionais, e, por isso, agem da maneira que agem. Portanto, seria interessante considerar um certo ceticismo no trabalho jornalístico. Um ceticismo realista, diferente daquele ceticismo chato que duvida de tudo.
Russell propôs mais dez mandamentos ao mundo, que podem ser aplicados também ao jornalismo:
1. Não tenhas certeza absoluta de nada.
2. Não consideres que valha a pena proceder escondendo evidências, pois as evidências inevitavelmente virão à luz.
3. Nunca tentes desencorajar o pensamento, pois com certeza tu terás sucesso.
4. Quando encontrares oposição, mesmo que seja de teu cônjuge ou de tuas crianças, esforça-te para superá-la pelo argumento, e não pela autoridade, pois uma vitória dependente da autoridade é irreal e ilusória.
5. Não tenhas respeito pela autoridade dos outros, pois há sempre autoridades contrárias a serem achadas.
6. Não uses o poder para suprimir opiniões que consideres perniciosas, pois as opiniões irão suprimir-te.
7. Não tenhas medo de possuir opiniões excêntricas, pois todas as opiniões hoje aceitas foram um dia consideradas excêntricas.
8. Encontres mais prazer em desacordo inteligente do que em concordância passiva, pois, se valorizas a inteligência como deverias, o primeiro será um acordo mais profundo que a segunda.
9. Sê escrupulosamente verdadeiro, mesmo que a verdade seja inconveniente, pois será mais inconveniente se tentares escondê-la.
10. Não tenhas inveja daqueles que vivem num paraíso dos tolos, pois apenas um tolo o consideraria um paraíso.
Para um novo jornalista, os mandamentos acima serão úteis no dia-a-dia da profissão. Ao lidar com jornalistas mais experientes, por exemplo, busque mostrar a razão de você pensar como pensa – só não tente pensar como eles pensam. Seja um livre-pensador.
Sugestões:
BALZAC, Honoré. Os Jornalistas. Rio de Janeiro. Ediouro, 1999.
DESCARTES, René. Discurso do Método. Porto Alegre. L&PM, 2005.
ERASMO. Elogio da Loucura. Porto Alegre. L&PM, 2003.
FORTES, Leonardo. Jornalismo Investigativo. São Paulo. Contexto, 2005.
NOBLAT, Ricardo. A arte de escrever um jornal diário. São Paulo. Contexto, 2005.
ORWELL, George. Na pior em Paris e Londres. São Paulo. Cia. das Letras, 2005.
RUSSELL, Bertrand. Ensaios Céticos. Porto Alegre. L&PM, 2008.
SCHOPENHAUER, Arthur. Como vencer um debate sem precisar ter razão. Rio de Janeiro. Topbooks, 2003.
THOMPSON, Hunter S. A grande caçada aos tubarões. São Paulo. Conrad, 2004.
VOLTAIRE. Conselhos a um jornalista. Martins Fontes. São Paulo, 2006.
Publicado às 10:03 (-3 GMT) em Curitiba - PR, Brasil
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