A Argentina mais uma vez balançou, como nos últimos anos, econômica e politicamente. A Venezuela, Colômbia e Equador mantiveram suas confusões diplomáticas e trocaram acusações. O Chile, ao lado da Argentina, foi dos países que mais sofreu com a nova gripe. O Uruguai conquistou uma vaga na Copa e mudou de presidente. O Brasil você sabe, escândalos políticos, dinheiro escapando pelo ralo e a notícia da escolha do Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas de 2016.
Bem, vamos por partes:
Argentina: O governo de Cristina Kirchner continua com as pernas bambas. Tentaram até controlar a imprensa – não de forma discreta, como fazem nos outros países da região.
Bolívia: Evo Morales foi reeleito. Continuam plantando coca com subsídio do governo. Fato importante: ganharam da Argentina por 6 a 1.
Brasil: Internamente o Brasil repetiu um evento comum há 500 anos, a corrupção. Fora das fronteiras nos vimos envolvidos num golpe de estado hondurenho com ocupação, acredite, da embaixada brasileira – que dura até hoje. Também planejamos comprar aviões de combate – mas pelo visto nada prioritário, nenhuma compra até então.
Chile: O país sofreu um tanto com a gripe A – os números foram altos por lá. O Chile encerra o ano pensando no segundo turno das eleições presidenciais que, ao que parece, pode devolver o poder à direita – aquela do Pinochet.
Colômbia: Falam mal da Venezuela e Chávez, mas pensam em aceitar um terceiro mandato para o mesmo presidente. Continuam em um tipo de crise diplomática com os vizinhos Equador e Venezuela. Fecharam um acordo com os Estados Unidos – o que criou suspeita da parte de todos os demais vizinhos.
Equador: Apesar da crise com a Colômbia e do apoio ao estilo Chávez o país continua num “silêncio” internacional – pelo menos aqui. Ah, houve aquele caso dos brasileiros da Odebrecht que levaram a culpa por uma obra que, segundo eles, não funcionou como deveria.
Paraguai: Ah o Paraguai! O presidente deles, um ex-bispo, parece saído de um jogo de xadrez: come todo mundo. Já tem alguns filhos. E conseguiram uma ajudinha do Lula quanto ao preço praticado em Itaipu.
Peru: É nas águas peruanas que acontece o El Niño. Culpa do calor por aqui, das chuvas, da seca, etc. Um novo projeto de rodovia ligará o Brasil ao Pacífico através do Peru – ou não.
Uruguai: Um novo presidente assumiu e recusou a residência oficial, vai ficar no seu sítio – menos gasto público, bom exemplo. O país também conquistou uma vaga no Copa do Mundo.
Venezuela: Hum, por lá tudo que acontece de ruim “é culpa dos Estados Unidos”. Compraram umas armas de guerra, da Rússia.
E a Guiana, Suriname? Continuam “desconhecidos” para a maioria dos brasileiros – talvez por participarem do futebol caribenho. A Guiana Francesa... bom, é da França – que quer vender aviões para o Brasil – e vários brasileiros da Amazônia vão pra lá tentar a vida em euros. Rendeu até um Globo Repórter – ou isso foi em 2008? Melhor parar por aqui.
E no último ano da década metade do que foi descrito acima deverá se repetir no continente. No Brasil, até fevereiro vai se falar do carnaval e a partir de março o assunto será Copa do Mundo. Ah tem eleições! Como um jornal disse dia desses: Panetonem et circenses. Até lá!
25 de dez. de 2009
17 de dez. de 2009
Mundo afora num clique
Vindo de Santo André, na grande São Paulo, Valter Ziantoni formou-se engenheiro florestal e nunca parou de registrar o que enquadrava com seus olhos. Desenhou florestas com luz – como na cena capturada em Sarajevo, capital da Bósnia –, e a diversidade brasileira da Mata Atlântica e Floresta Amazônica. Suas imagens verdes também contrastam com um álbum preto e branco de algumas paragens do leste europeu e com ora amarelo, ora colorido do deserto e da savana africana.

Sarajevo, Bósnia e Herzegovina
Ziantoni também faz questão de mostrar a dura realidade da agressão humana aos animais, com algumas fotos sob o título “cry jungle”. Uma forma de alertar para a crueldade que por aí se espalha contra a vida.
Valter e eu estudamos juntos na especialização em Relações Internacionais, onde também conheci sua noiva e companheira de viagens: a também engenheira florestal Leticia Hermoso. Costumávamos participar do mesmo grupo nos trabalhos da pós-graduação e a bagagem cultural diversa rendia bons conteúdos e boas risadas. Valter se mostrou um personagem interessante, com um bom humor, que pode ser conhecido – em partes – na conversa que segue.
Sendo engenheiro florestal e ligado aos assuntos ambientais, acredita na fotografia como forma de preservação ambiental? Há o choque visual da realidade?
Valter Ziantoni: A fotografia é o reflexo plano do real, capturar toda a beleza e diversidade de uma floresta em uma foto seria impossível, e mais impossível ainda seria capturar a dor e impotência diante de crimes ambientais. De qualquer modo a foto exerce um papel mais forte que a palavra, neste caso, a foto choca, a foto traz o real e o mostra, a foto convence e cria percepções até então desconhecidas, sendo uma ferramenta de mobilização fortíssima, pelo simples fato de ser real.
A foto eterniza o momento e o eterno se torna admirável, entretanto no âmbito jornalístico a foto é o veículo que leva a cena aos olhos, ela é uma pequena janela para o todo, o real que está acontecendo à volta, real esse que às vezes é esquecido enquanto a foto é lembrada. Pessoalmente eu penso que a foto deve perturbar, em um sentido positivo, mas tem que apresentar alguma inquietude, a foto deve ser viva. Uma foto é antes de qualquer coisa uma idéia e ao mesmo tempo uma frase não terminada.
Dos novos cenários que encontra, o que tenta “tirar” deles?
VZ: Na verdade eu não tiro, são eles que me dão... (risos). Fotografia é “olho” e técnica, em um novo cenário ou situação, você evoca todos os lugares parecidos em que já tenha estado, por técnica. Mas por “olho”, você busca algo de novo, de impacto, de beleza etérea, alguma coisa que está esperando para ser eternizada. As cores mostram a vida das coisas, o Preto e Branco mostra a alma. É uma questão de como ver o mundo. Creio que quando fotografo o que tento “tirar” de cada novo cenário é a forma como eu mesmo o vejo – o que meus olhos me mostram.
E lugares novos para mim são todos aqueles que eu já conhecia e que por algum motivo qualquer terminei por redescobri-los.

O próprio Valter e sua câmera. Foto: Simone Torrini
Como foram os primeiros cliques, primeiras câmeras?
VZ: Desde muito pequeno comecei a apaixonar-me por câmeras, posso dizer que começou com a câmera antes da foto – meio “o ovo e a galinha”. Meu tio avô tinha uma câmera muito antiga, alemã, um Rodenstock Prontoklapp, de fole, que eu costumava brincar, depois continuei fotografando, até que consegui dinheiro suficiente para comprar minha primeira Reflex usada. Desde aí, nunca deixei de ter uma câmera ao alcance do braço.
Esse caso de “amor” com a fotografia já rendeu algumas premiações, trabalhos?
VZ: O último concurso que ganhei foi no Congresso Florestal Mundial no mês de outubro deste ano, na Argentina; com uma foto que aconteceu quando estava trabalhando no norte do país, realizando o inventário de uma Floresta Nacional. Sempre que tenho a oportunidade tento participar de concursos. Além desse, já ganhei ou consegui menções em outros tantos lugares – Brasil, Itália, Espanha, etc. Tenho vários trabalhos publicados em revistas e participei de vários projetos fotográficos. Fui responsável fotográfico do livro “Itupava, o Caminho de Nossas Origens” no Paraná e fiz fotos para diversos catálogos e livros, também trabalhei como fotografo de corridas de aventura na Bulgária.
E o destino? Aonde pretende chegar?
VZ: Eu costumava fazer planos e pensar onde chegaria, mas agora me dedico ao máximo ao que faço sem esperar recompensas. Apenas deixo que a vida trabalhe um pouco. Eu fotografo porque sou apaixonado por isso e realmente sei fazer, então, posso dizer que as fotos fazem o caminho, assim só vou seguindo a qualquer lugar, desde que seja em frente!
Mais do trabalho de Valter Ziantoni pode ser visto em www.flickr.com/trotamundus

Sarajevo, Bósnia e Herzegovina
Ziantoni também faz questão de mostrar a dura realidade da agressão humana aos animais, com algumas fotos sob o título “cry jungle”. Uma forma de alertar para a crueldade que por aí se espalha contra a vida.
Valter e eu estudamos juntos na especialização em Relações Internacionais, onde também conheci sua noiva e companheira de viagens: a também engenheira florestal Leticia Hermoso. Costumávamos participar do mesmo grupo nos trabalhos da pós-graduação e a bagagem cultural diversa rendia bons conteúdos e boas risadas. Valter se mostrou um personagem interessante, com um bom humor, que pode ser conhecido – em partes – na conversa que segue.
Sendo engenheiro florestal e ligado aos assuntos ambientais, acredita na fotografia como forma de preservação ambiental? Há o choque visual da realidade?
Valter Ziantoni: A fotografia é o reflexo plano do real, capturar toda a beleza e diversidade de uma floresta em uma foto seria impossível, e mais impossível ainda seria capturar a dor e impotência diante de crimes ambientais. De qualquer modo a foto exerce um papel mais forte que a palavra, neste caso, a foto choca, a foto traz o real e o mostra, a foto convence e cria percepções até então desconhecidas, sendo uma ferramenta de mobilização fortíssima, pelo simples fato de ser real.
A foto eterniza o momento e o eterno se torna admirável, entretanto no âmbito jornalístico a foto é o veículo que leva a cena aos olhos, ela é uma pequena janela para o todo, o real que está acontecendo à volta, real esse que às vezes é esquecido enquanto a foto é lembrada. Pessoalmente eu penso que a foto deve perturbar, em um sentido positivo, mas tem que apresentar alguma inquietude, a foto deve ser viva. Uma foto é antes de qualquer coisa uma idéia e ao mesmo tempo uma frase não terminada.
Dos novos cenários que encontra, o que tenta “tirar” deles?
VZ: Na verdade eu não tiro, são eles que me dão... (risos). Fotografia é “olho” e técnica, em um novo cenário ou situação, você evoca todos os lugares parecidos em que já tenha estado, por técnica. Mas por “olho”, você busca algo de novo, de impacto, de beleza etérea, alguma coisa que está esperando para ser eternizada. As cores mostram a vida das coisas, o Preto e Branco mostra a alma. É uma questão de como ver o mundo. Creio que quando fotografo o que tento “tirar” de cada novo cenário é a forma como eu mesmo o vejo – o que meus olhos me mostram.
E lugares novos para mim são todos aqueles que eu já conhecia e que por algum motivo qualquer terminei por redescobri-los.

O próprio Valter e sua câmera. Foto: Simone Torrini
Como foram os primeiros cliques, primeiras câmeras?
VZ: Desde muito pequeno comecei a apaixonar-me por câmeras, posso dizer que começou com a câmera antes da foto – meio “o ovo e a galinha”. Meu tio avô tinha uma câmera muito antiga, alemã, um Rodenstock Prontoklapp, de fole, que eu costumava brincar, depois continuei fotografando, até que consegui dinheiro suficiente para comprar minha primeira Reflex usada. Desde aí, nunca deixei de ter uma câmera ao alcance do braço.
Esse caso de “amor” com a fotografia já rendeu algumas premiações, trabalhos?
VZ: O último concurso que ganhei foi no Congresso Florestal Mundial no mês de outubro deste ano, na Argentina; com uma foto que aconteceu quando estava trabalhando no norte do país, realizando o inventário de uma Floresta Nacional. Sempre que tenho a oportunidade tento participar de concursos. Além desse, já ganhei ou consegui menções em outros tantos lugares – Brasil, Itália, Espanha, etc. Tenho vários trabalhos publicados em revistas e participei de vários projetos fotográficos. Fui responsável fotográfico do livro “Itupava, o Caminho de Nossas Origens” no Paraná e fiz fotos para diversos catálogos e livros, também trabalhei como fotografo de corridas de aventura na Bulgária.
E o destino? Aonde pretende chegar?
VZ: Eu costumava fazer planos e pensar onde chegaria, mas agora me dedico ao máximo ao que faço sem esperar recompensas. Apenas deixo que a vida trabalhe um pouco. Eu fotografo porque sou apaixonado por isso e realmente sei fazer, então, posso dizer que as fotos fazem o caminho, assim só vou seguindo a qualquer lugar, desde que seja em frente!
Mais do trabalho de Valter Ziantoni pode ser visto em www.flickr.com/trotamundus
9 de dez. de 2009
O Brasil aos olhos do mundo
O velho país do futuro, da obra do austríaco Stefan Zweig, parece estar deslanchando naquele mesmo estilo do livro: ao seu tempo. Apesar de alguns contra-tempos enfrentados na política externa – como o caso de Honduras e Haiti –, quando o assunto é o próprio Brasil num cenário global, um dos maiores mercados do mundo, a história muda. Jornais de vários países contam os feitos brasileiros e apostam suas fichas na "esperança em verde-amarelo".
O espanhol El País mostra frequentemente casos brasileiros, o papel do país diante de outros atores internacionais, a economia que tem se segurado bem e, claro, contos da floresta – e não só para inglês (ou espanhol) ver. O nome do Brasil, tem sido uma forte marca no exterior. Nesse “fim” de crise, o país tem aparecido também no britânico The Economist e no francês Le Monde.
E foi no mesmo Le Monde que o atual governo se viu prestigiado e a oposição contrariada. Naquela historia da “marolinha” sobre a tsunami da crise, o jornal francês concordou com Lula. Na mesma hora surgiram comentários de que o cliente sempre tem razão – sobre a compra brasileira de caças de combate do país de Napoleão.
Mas o Brasil está tão bem assim? Para o governo está ainda melhor. Lula fecha o ano com mais de 80% de aprovação popular e com uma arma contra a oposição. Tudo pronto para a corrida eleitoral que também estará nas capas dos jornais do mundo todo.
E para o povo, como as coisas estão? Disso quase nada se lê no noticiário internacional. Mas se quem ama o feio bonito lhe parece, o simpático e adorável Brasil está perfeito aos olhos do mundo – pelo menos nos jornais.
O espanhol El País mostra frequentemente casos brasileiros, o papel do país diante de outros atores internacionais, a economia que tem se segurado bem e, claro, contos da floresta – e não só para inglês (ou espanhol) ver. O nome do Brasil, tem sido uma forte marca no exterior. Nesse “fim” de crise, o país tem aparecido também no britânico The Economist e no francês Le Monde.
E foi no mesmo Le Monde que o atual governo se viu prestigiado e a oposição contrariada. Naquela historia da “marolinha” sobre a tsunami da crise, o jornal francês concordou com Lula. Na mesma hora surgiram comentários de que o cliente sempre tem razão – sobre a compra brasileira de caças de combate do país de Napoleão.
Mas o Brasil está tão bem assim? Para o governo está ainda melhor. Lula fecha o ano com mais de 80% de aprovação popular e com uma arma contra a oposição. Tudo pronto para a corrida eleitoral que também estará nas capas dos jornais do mundo todo.
E para o povo, como as coisas estão? Disso quase nada se lê no noticiário internacional. Mas se quem ama o feio bonito lhe parece, o simpático e adorável Brasil está perfeito aos olhos do mundo – pelo menos nos jornais.
5 de dez. de 2009
A tecnologia do trenzinho caipira
Na última sexta (4) a comitiva brasileira que está na Europa com o presidente Lula conheceu o trem de alta velocidade alemão, o ICE (InterCity Express), produzido pela Siemens. A ideia é trazer este modelo de transporte para o Brasil – talvez próprio modelo da Siemens, que é uma das concorrentes para a nova empreitada brasileira. Inicialmente o projeto pretende ligar as cidades de Campinas (SP), São Paulo e Rio de Janeiro, e futuramente expandir a rede em ramificações que alcancem Curitiba, Belo Horizonte, Brasília, etc.
Mas para vencer a licitação os alemães terão que aceitar transferir sua tecnologia para mãos e cabeças brasileiras. A mesma situação da compra dos caças de combate – aquela em que França, Estados Unidos e Suécia competem para agradar Brasília. Tecnologia que, logicamente, estará incluída no preço final do produto – tanto do trem, quanto dos aviões.
Além do comércio com outros países, esteve na pauta dos jornais o recente acordo Brasil/Ucrânia para lançamento de foguetes daquele país a partir da base de Alcântara, no Maranhão. Assunto em que o Brasil tem muito o que aprender e o dinheiro é curto. Agora o BNDES vai financiar o projeto “quase pronto” da Ucrânia. Teremos acesso à foguetes que, teoricamente, voam mais que os nossos.
E o custo de se comprar ou investir em tecnologias prontas, compensa? A considerar o curto prazo... compramos o primeiro e aprendemos a montar o segundo, terceiro, quarto, etc; e ao pensar que investimentos em pesquisa e produção exigem planejamento e dinheiro por um certo tempo – o que a cada eleição é cortado para nova análise situação/oposição – podemos dizer que não estamos preparados politicamente para desenvolver tecnologia avançada e que comprá-las ainda é uma boa alternativa.
O que falei até aqui, são apenas exemplos de situações recentes onde recorremos às tecnologias adquiridas ou compartilhadas – não estou a sugerir que se escolha ou produza uma alternativa nacional, mas que a partir de necessidades como as atuais se pense em estimular a produção científica por aqui. Aliás, se existem boas coisas no mundo temos mais é que conhecê-las e se resolve nossos problemas, por que não comprá-las?
O ideal, penso eu, seria ver certos setores públicos do Brasil, como empresas e centros de pesquisa e educação, livres das amarras político-partidárias. Que se invista em educação e num modelo de formação de livres pensadores – para que no futuro possamos escolher novos caminhos, políticas públicas, parcerias com a iniciativa privada e um novo desenvolvimento nas terras brasileiras – no mesmo longo prazo do desenvolvimento social.
E, é claro, podemos lembrar dos bons exemplos nacionais, como a tecnologia desenvolvida pela Petrobras, Embraer, Embrapa, as pesquisas da USP, Unicamp e outros centros de áreas diversas – conhecimento que também exportamos.
Porém, depender de financiamento para se desenvolver é um caminho difícil; depender de interesses políticos – ora eleitoreiros – é outro, ainda mais complicado e bastante sinuoso. E apesar de termos capacidade intelectual – tanto que muitos de nossos cientistas são “levados” para outros países –, ainda estamos no segundo caminho – em obras.
---
O Trenzinho Caipira
Heitor Villa-Lobos
Lá vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade noite a girar
Lá vai o trem sem destino
Pro dia novo encontrar
Correndo vai pela terra, vai pela serra, vai pelo mar
Cantando pela serra do luar
Correndo entre as estrelas a voar
No ar, no ar…
(Ferreira Gullar)
Mas para vencer a licitação os alemães terão que aceitar transferir sua tecnologia para mãos e cabeças brasileiras. A mesma situação da compra dos caças de combate – aquela em que França, Estados Unidos e Suécia competem para agradar Brasília. Tecnologia que, logicamente, estará incluída no preço final do produto – tanto do trem, quanto dos aviões.
Além do comércio com outros países, esteve na pauta dos jornais o recente acordo Brasil/Ucrânia para lançamento de foguetes daquele país a partir da base de Alcântara, no Maranhão. Assunto em que o Brasil tem muito o que aprender e o dinheiro é curto. Agora o BNDES vai financiar o projeto “quase pronto” da Ucrânia. Teremos acesso à foguetes que, teoricamente, voam mais que os nossos.
E o custo de se comprar ou investir em tecnologias prontas, compensa? A considerar o curto prazo... compramos o primeiro e aprendemos a montar o segundo, terceiro, quarto, etc; e ao pensar que investimentos em pesquisa e produção exigem planejamento e dinheiro por um certo tempo – o que a cada eleição é cortado para nova análise situação/oposição – podemos dizer que não estamos preparados politicamente para desenvolver tecnologia avançada e que comprá-las ainda é uma boa alternativa.
O que falei até aqui, são apenas exemplos de situações recentes onde recorremos às tecnologias adquiridas ou compartilhadas – não estou a sugerir que se escolha ou produza uma alternativa nacional, mas que a partir de necessidades como as atuais se pense em estimular a produção científica por aqui. Aliás, se existem boas coisas no mundo temos mais é que conhecê-las e se resolve nossos problemas, por que não comprá-las?
O ideal, penso eu, seria ver certos setores públicos do Brasil, como empresas e centros de pesquisa e educação, livres das amarras político-partidárias. Que se invista em educação e num modelo de formação de livres pensadores – para que no futuro possamos escolher novos caminhos, políticas públicas, parcerias com a iniciativa privada e um novo desenvolvimento nas terras brasileiras – no mesmo longo prazo do desenvolvimento social.
E, é claro, podemos lembrar dos bons exemplos nacionais, como a tecnologia desenvolvida pela Petrobras, Embraer, Embrapa, as pesquisas da USP, Unicamp e outros centros de áreas diversas – conhecimento que também exportamos.
Porém, depender de financiamento para se desenvolver é um caminho difícil; depender de interesses políticos – ora eleitoreiros – é outro, ainda mais complicado e bastante sinuoso. E apesar de termos capacidade intelectual – tanto que muitos de nossos cientistas são “levados” para outros países –, ainda estamos no segundo caminho – em obras.
---
O Trenzinho Caipira
Heitor Villa-Lobos
Lá vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade noite a girar
Lá vai o trem sem destino
Pro dia novo encontrar
Correndo vai pela terra, vai pela serra, vai pelo mar
Cantando pela serra do luar
Correndo entre as estrelas a voar
No ar, no ar…
(Ferreira Gullar)
4 de dez. de 2009
O fim pode ser um bom começo
O ano termina em 27 dias. Um ano que trouxe à tona datas marcantes em números redondos – uma interessante coincidência da História no fim de cada década: eventos que mudaram o mundo. E 2009 certamente já entrou para a lista de fatos marcantes com eventos como a grave crise econômica, gripe suína, morte de Michael Jackson, a descoberta de água na Lua e a posse de Obama.
Neste mesmo ano, prestes a terminar, lembraram dos 40 anos da chegada do homem à Lua e do disco Abbey Road, dos Beatles; 50 anos de carreira de Roberto Carlos, 20 da morte de Raul Seixas; o centenário dos clubes de futebol Internacional (RS) e Coritiba (PR); 110 do Vitória (BA), do Milan (ITA) e do Barcelona (ESP); 20 do São Caetano (SP) – precisamente neste dia 4 de dezembro.
São 50 anos também do início da Guerra do Vietnã; outros 30 da criação do Estado do Mato Grosso do Sul; 40 da criação dos Correios; 40 do Jornal Nacional (Rede Globo); e 40 do primeiro e-mail. São 120 anos da Proclamação da República no Brasil; 60 anos da criação da OTAN; 70 anos do primeiro poço de petróleo no Brasil; 70 do fim da Guerra Civil Espanhola e 70 do início da Segunda Guerra Mundial; e 80 anos do nascimento de Martin Luther King; 90 anos da primeira transmissão de rádio no Brasil; 120 anos do nascimento de Adolf Hitler e também de Charles Chaplin.
Há 120 anos também era inaugurada a torre Eiffel e fundada a cidade de Campo Grande (MS). Há 130 nascia Albert Einstein e Carlos Chagas; e há 140: Gandhi. Há 160 anos nascia Paul Cézanne. Outros 200 anos do nascimento de Abraham Lincoln e Charles Darwin. São 220 anos da Revolução Francesa e das primeiras eleições nacionais dos Estados Unidos; 710 da criação do Império Otomano – que durou até 1923.
E há 80 anos, também passávamos por uma grande crise econômica que deu dor de cabeça em muita gente – ainda bem que há 110 anos inventaram a aspirina. E tantas coisas mais...
Neste mesmo ano, prestes a terminar, lembraram dos 40 anos da chegada do homem à Lua e do disco Abbey Road, dos Beatles; 50 anos de carreira de Roberto Carlos, 20 da morte de Raul Seixas; o centenário dos clubes de futebol Internacional (RS) e Coritiba (PR); 110 do Vitória (BA), do Milan (ITA) e do Barcelona (ESP); 20 do São Caetano (SP) – precisamente neste dia 4 de dezembro.
São 50 anos também do início da Guerra do Vietnã; outros 30 da criação do Estado do Mato Grosso do Sul; 40 da criação dos Correios; 40 do Jornal Nacional (Rede Globo); e 40 do primeiro e-mail. São 120 anos da Proclamação da República no Brasil; 60 anos da criação da OTAN; 70 anos do primeiro poço de petróleo no Brasil; 70 do fim da Guerra Civil Espanhola e 70 do início da Segunda Guerra Mundial; e 80 anos do nascimento de Martin Luther King; 90 anos da primeira transmissão de rádio no Brasil; 120 anos do nascimento de Adolf Hitler e também de Charles Chaplin.
Há 120 anos também era inaugurada a torre Eiffel e fundada a cidade de Campo Grande (MS). Há 130 nascia Albert Einstein e Carlos Chagas; e há 140: Gandhi. Há 160 anos nascia Paul Cézanne. Outros 200 anos do nascimento de Abraham Lincoln e Charles Darwin. São 220 anos da Revolução Francesa e das primeiras eleições nacionais dos Estados Unidos; 710 da criação do Império Otomano – que durou até 1923.
E há 80 anos, também passávamos por uma grande crise econômica que deu dor de cabeça em muita gente – ainda bem que há 110 anos inventaram a aspirina. E tantas coisas mais...
10 de nov. de 2009
A maré trouxe outra garrafa

Bom dia! Segue um texto para seguidores e seguidos. Um texto em blocos que não ultrapassam os 140 caracteres. Apenas a refletir.
Discute-se política, piada, polêmica, pobreza, putaria. Que p@#%, não? Ora "falamos" sozinhos. Há alguém à deriva?
Lê-se de baixo para cima, de cima para baixo e tanto faz. Que importam os sentidos agora? A esta altura, quase nada.
Há no Twitter mais gente a dar RT do que a pensar e escrever. É auto-censura? Às vezes os outros falam mais besteiras que nós.
Por que copiam tanto? Pode-se criar mais. Diga alguma coisa! Traduza pensamentos.
Houve um tempo em que pensávamos por noites inteiras. Filosofia de praia. Conversa de quem não dorme.
Hoje pensamos, sozinhos, em poucas palavras. Com contadores de letras e espaços, símbolos gráficos... São 140 e nada mais.
Às vezes limitados pela métrica (?) de uma micro-mensagem, enviamos a nova garrafa com bilhetes – a ser levada pela maré. A perder de vista!
Mais uma onda quebrou na praia. As mensagens que por aqui chegavam eram únicas. Hoje a maioria vem com tampa plástica. E começa com “RT”.
3 de nov. de 2009
De liberdade e esperança
Todo tipo de idealismo parece ter morrido. O que temos hoje são resquícios de tudo e de nada, distorções e mutações de todos os gêneros; e de todas as formas de governo conhecidas, não houve uma que não tenha tomado gosto pelo poder e usado isto em benefício próprio. Do ideal comunista vimos surgir o autoritarismo – da igualdade pela mão de ferro –, e do capitalista o consumismo – do quanto mais, melhor e para o bolso de poucos.
De toda forma, parte do mundo está migrando do consumismo – que ainda predomina – para um liberalismo real. Não aquele liberalismo econômico padronizado dos clássicos de economia, mas um que também possibilita a liberdade de pensamento. Um liberalismo mais social. A humanidade parece ter adquirido nestes últimos anos uma certa consciência de que a informação e a capacidade de pensar traz benefícios não só para o indivíduo, mas também para a sociedade. Pois é verdade que produzimos mais informações nos últimos 50 anos do que em vários outros séculos de História.
É claro que, em muitos lugares, muita gente ainda está longe disso. Além das limitações promovidas pela influência dos idealismos do passado – fatores econômicos, por exemplo –, há ainda os limitadores sociais – questões como o analfabetismo e a fome. Mas também se vê, em algumas regiões, o povo a escapar de dogmas – gerais, não somente os da fé –, e que a ciência tem possibilitado novas ideias – por mérito do acesso à informação. Ideias que podem mudar ainda mais o mundo.
Temos muito ainda para refletir e desenvolver, mas a saída desta mais recente crise econômica mostra que o mundo se reergueu com novas ideias, como novos anti-corpos. A crise ainda provou que o liberalismo atual não era lá muito liberal e que o Estado ainda é parte importante deste sistema. Mas agora, com as coisas voltando aos eixos, pode-se planejar uma nova estratégia para a economia – para que os erros não se repitam. E o papel do Estado não deve voltar a ser o proposto pelo capitalismo ou comunismo – como alguns acusaram o governo de Barack Obama, pós-crise –, nem por outros tantos ...ismos.
Resta a esperança de que se faça um Estado-Livre, planejado para que sua população tenha tempo de receber uma formação adequada e livre. O que só teremos depois de uma consciente disputa eleitoral e da pressão popular por resultados das ações dos eleitos. Bem, como disse: liberdade e esperança – ainda sonhos.
De toda forma, parte do mundo está migrando do consumismo – que ainda predomina – para um liberalismo real. Não aquele liberalismo econômico padronizado dos clássicos de economia, mas um que também possibilita a liberdade de pensamento. Um liberalismo mais social. A humanidade parece ter adquirido nestes últimos anos uma certa consciência de que a informação e a capacidade de pensar traz benefícios não só para o indivíduo, mas também para a sociedade. Pois é verdade que produzimos mais informações nos últimos 50 anos do que em vários outros séculos de História.
É claro que, em muitos lugares, muita gente ainda está longe disso. Além das limitações promovidas pela influência dos idealismos do passado – fatores econômicos, por exemplo –, há ainda os limitadores sociais – questões como o analfabetismo e a fome. Mas também se vê, em algumas regiões, o povo a escapar de dogmas – gerais, não somente os da fé –, e que a ciência tem possibilitado novas ideias – por mérito do acesso à informação. Ideias que podem mudar ainda mais o mundo.
Temos muito ainda para refletir e desenvolver, mas a saída desta mais recente crise econômica mostra que o mundo se reergueu com novas ideias, como novos anti-corpos. A crise ainda provou que o liberalismo atual não era lá muito liberal e que o Estado ainda é parte importante deste sistema. Mas agora, com as coisas voltando aos eixos, pode-se planejar uma nova estratégia para a economia – para que os erros não se repitam. E o papel do Estado não deve voltar a ser o proposto pelo capitalismo ou comunismo – como alguns acusaram o governo de Barack Obama, pós-crise –, nem por outros tantos ...ismos.
Resta a esperança de que se faça um Estado-Livre, planejado para que sua população tenha tempo de receber uma formação adequada e livre. O que só teremos depois de uma consciente disputa eleitoral e da pressão popular por resultados das ações dos eleitos. Bem, como disse: liberdade e esperança – ainda sonhos.
1 de nov. de 2009
A cultura do anunciante de cidade pequena
Existe nas cidades pequenas uma espécie de anúncio por indicação ou camaradagem. Boa parte dos anunciantes acabam fechando acordos comerciais no velho estilo “caderneta” do mercado da esquina. Há também grandes anunciantes que, apesar de terem agências de publicidade, acabam cedendo a todo tipo de mídia.
Mas a questão está na informação de qualidade – rara ou pouco acessível nessas cidades. Jornais semanários são produzidos aos montes em cidades menores – pode-se tirar um ou dois que publicam algo relevante; os demais, no maior espaço da edição, publicam releases de assessoria de políticos da região.
Já nos diários, a relação muda: publicam assuntos relevantes, mas são poucas as histórias que chamam a atenção no meio de tanta coisa noticiada. Aliás, a maior parte das coisas há tempos são apenas noticiadas. Poucas são as histórias que ganham uma narrativa, uma forma bem contada. E o profissional de jornalismo – quando profissional – às vezes se acomoda na pauta repetida, na cadeira e ao telefone; "muitas vezes por força do patrão", como disse um amigo jornalista.
O mesmo ocorre nas Rádios. Programas cheios de anúncios ou terceirizados. E onde o grande chamariz para o anunciante não é a audiência, mas a boa fala do apresentador – que quase sempre vende seus próprios anúncios. É um cargo bastante indefinido este de comunicador e vendedor de publicidade. Algumas TVs também oferecem espaço para anúncios e os produzem – aproveitando-se da cultura (ou falta de) dos anunciantes locais.
Observa-se que, sendo as coisas como são, os anunciantes de cidades pequenas não são muito exigentes – esperam apenas aparecer e certamente não tem controle do retorno de sua publicidade. No máximo possuem estimativas do alcance, de acordo com a tiragem do veículo impresso – que muitas vezes não condiz com a realidade.
E então podemos questionar: se um novo veículo, interessado numa publicação de bom conteúdo, surgisse numa cidade dessas, teria sucesso? É possível que venha a fracassar em pouco tempo. Pois entraria na disputa pelos mesmos anunciantes que já possuem um laço com seus veículos preferidos – difícil de ser quebrado –, e pouco se importam com os leitores destes veículos – preocupam-se mais com o preço do anúncio e a exibição de sua marca, da maneira que for.
É por este motivo que sempre existem anunciantes em revistas que publicam somente classificados e anúncios em geral – comum em cidades pequenas. É uma questão cultural que só se modificará com o acesso à informação de qualidade – e levará um certo tempo para que a população exija tal informação; assim como também levará tempo para que os anunciantes percebam as exigências do público e então escolham anunciar em veículos de qualidade.
No momento, na maioria dessas cidades, a informação vale menos que o espaço, o nome da empresa de comunicação, e a influência das pessoas que fazem a grande imprensa de uma pequena cidade.
Mas a questão está na informação de qualidade – rara ou pouco acessível nessas cidades. Jornais semanários são produzidos aos montes em cidades menores – pode-se tirar um ou dois que publicam algo relevante; os demais, no maior espaço da edição, publicam releases de assessoria de políticos da região.
Já nos diários, a relação muda: publicam assuntos relevantes, mas são poucas as histórias que chamam a atenção no meio de tanta coisa noticiada. Aliás, a maior parte das coisas há tempos são apenas noticiadas. Poucas são as histórias que ganham uma narrativa, uma forma bem contada. E o profissional de jornalismo – quando profissional – às vezes se acomoda na pauta repetida, na cadeira e ao telefone; "muitas vezes por força do patrão", como disse um amigo jornalista.
O mesmo ocorre nas Rádios. Programas cheios de anúncios ou terceirizados. E onde o grande chamariz para o anunciante não é a audiência, mas a boa fala do apresentador – que quase sempre vende seus próprios anúncios. É um cargo bastante indefinido este de comunicador e vendedor de publicidade. Algumas TVs também oferecem espaço para anúncios e os produzem – aproveitando-se da cultura (ou falta de) dos anunciantes locais.
Observa-se que, sendo as coisas como são, os anunciantes de cidades pequenas não são muito exigentes – esperam apenas aparecer e certamente não tem controle do retorno de sua publicidade. No máximo possuem estimativas do alcance, de acordo com a tiragem do veículo impresso – que muitas vezes não condiz com a realidade.
E então podemos questionar: se um novo veículo, interessado numa publicação de bom conteúdo, surgisse numa cidade dessas, teria sucesso? É possível que venha a fracassar em pouco tempo. Pois entraria na disputa pelos mesmos anunciantes que já possuem um laço com seus veículos preferidos – difícil de ser quebrado –, e pouco se importam com os leitores destes veículos – preocupam-se mais com o preço do anúncio e a exibição de sua marca, da maneira que for.
É por este motivo que sempre existem anunciantes em revistas que publicam somente classificados e anúncios em geral – comum em cidades pequenas. É uma questão cultural que só se modificará com o acesso à informação de qualidade – e levará um certo tempo para que a população exija tal informação; assim como também levará tempo para que os anunciantes percebam as exigências do público e então escolham anunciar em veículos de qualidade.
No momento, na maioria dessas cidades, a informação vale menos que o espaço, o nome da empresa de comunicação, e a influência das pessoas que fazem a grande imprensa de uma pequena cidade.
28 de set. de 2009
Rio Tubarão passa dos 4 metros
TUBARÃO, SC, BRASIL — Rio Tubarão volta a deixar a população em alerta.
Publicado às 16:30 (-3 GMT) em Tubarão - SC, Brasil
16 de set. de 2009
Crise econômica e novas doenças
Entre 1981 e 1983 o mundo passou por uma forte crise econômica. Na América Latina falava-se em moratória e o México puxava a fila em um de seus períodos mais graves. A crise do início da década de 80 também chegou ao Brasil, o assunto por aqui era a dívida externa impossível de se pagar e a inflação – a renda per capita despencou.
Naquele ano de 1983 um vírus originário dos símios foi identificado por franceses e portugueses, estava desvendado o causador da síndrome da imunodeficiência adquirida – a AIDS, na sigla em inglês. O sistema imunológico humano não soube combater o invasor e a esperança para os que contraem a doença ficou nas mãos dos laboratórios e seus coquetéis de alto preço. A crise passou e a AIDS alcançou o mundo todo, silenciosamente. Matou todo tipo de pessoa, independente de sexo, raça ou classe social.
Os anos 80 passaram, o muro de Berlim caiu, a Guerra Fria acabou e lá estávamos em 1995 quando uma nova crise ameaçou se formar e desestabilizar o sistema econômico. No Brasil, esta quase-crise fez com que alguns bancos fossem vendidos e outros fechassem – Nacional, Bamerindus, Econômico, por exemplo. No ano seguinte, uma doença rara e mortalmente rápida reapareceu na África central: o ebola. Dessa vez a crise não aconteceu de fato e passou, como o vírus, de forma bastante rápida. Mas não sem antes espalhar o medo pelo mundo.
Entre 1997 e 1999 breves doses de novas crises, mas foi possível chegar com certa tranquilidade ao novo milênio. Veio o medo do Bug do ano 2000, queda nas bolsas; em 2001 o atentado do dia 11 de setembro e um mundo preocupado com a segurança, no mesmo ano os Estados Unidos invadiram o Afeganistão e dois anos depois o Iraque também estava explosivo – o que resultou no alto preço do petróleo. Nos anos seguintes a Ásia balançou, a crise voltou a atingir América Latina, a Rússia e chegou à Europa. Foi nessa época que a gripe das aves foi identificada em humanos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou o mundo para o risco de uma nova pandemia, gastou-se milhões com remédios e vacinas. Possivelmente o dinheiro que circulou devido ao medo do terrorismo e da “nova” gripe tenha contribuído para reanimar o mercado internacional nesse começo de século. A tempestade passou, veio a calmaria.
E tudo ia bem até o ano de 2008, quando uma nova crise chegou. Todos os jornais do mundo noticiaram o infeliz momento da economia global – cada vez mais integrada e virtual. Bancos quebraram, empresas pediram ajuda aos governos, as maiores economias do mundo entraram em recessão. Dessa vez, os países em desenvolvimento sentiram menos o impacto da crise e continuaram a vida a seu modo. Foi quando, no México, uma nova doença foi identificada: a gripe suína – mais tarde chamada de Influenza A, H1N1. Logo o medo da pandemia estava na cara das pessoas, nas capas dos jornais, nos anúncios da TV. O vírus alcançou as maiores cidades do mundo em pouco tempo, mas se adaptou mesmo foi ao inverno gelado dos países do hemisfério sul – milhares de casos registrados na Argentina e no Chile.
A gripe, apesar de ter tirado a vida de muita gente, gerou dinheiro e emprego – como todas as outras doenças e guerras que conhecemos. Os governos dos países atingidos ou não, pelo vírus, passaram a comprar grandes doses de medicamentos e acessórios para uma possível “prevenção”. O dinheiro do mundo voltou a circular. O comércio exterior não parou como ameaçava meses antes. Mais uns meses e alguns países saíram da recessão. E a melhor notícia: a vacina está quase pronta para o uso, em tempo de impedir que a gripe alcance os países do hemisfério norte durante o inverno que está por vir.
Mais uma vez a crise dá sinal de que logo vai passar – já é possível ver no noticiário que algumas economias mundiais saíram do vermelho –, e o número de casos de gripe tem diminuído por aqui.
Revendo o passado, ligando os pontos, pode-se pensar numa relação entre economia e saúde – não é de hoje que esses dois assuntos andam juntos. A gripe espanhola, por exemplo, foi identificada logo após a Primeira Guerra Mundial por volta de 1918. A gripe aviária, na Ásia, já havia aparecido nos anos 60 – durante a disputa Estados Unidos x União Soviética e as guerras no Vietnã e na península da Coreia. O ebola também já havia afetado alguns povos da África no ano de 1976.
Talvez nossa História seja mesmo cíclica – com umas poucas mutações.
Publicado às 10:00 (-3 GMT) 0 comentários # Crise Econômica, Economia, Mundo, Opinião, Redação, Saúde
Naquele ano de 1983 um vírus originário dos símios foi identificado por franceses e portugueses, estava desvendado o causador da síndrome da imunodeficiência adquirida – a AIDS, na sigla em inglês. O sistema imunológico humano não soube combater o invasor e a esperança para os que contraem a doença ficou nas mãos dos laboratórios e seus coquetéis de alto preço. A crise passou e a AIDS alcançou o mundo todo, silenciosamente. Matou todo tipo de pessoa, independente de sexo, raça ou classe social.
Os anos 80 passaram, o muro de Berlim caiu, a Guerra Fria acabou e lá estávamos em 1995 quando uma nova crise ameaçou se formar e desestabilizar o sistema econômico. No Brasil, esta quase-crise fez com que alguns bancos fossem vendidos e outros fechassem – Nacional, Bamerindus, Econômico, por exemplo. No ano seguinte, uma doença rara e mortalmente rápida reapareceu na África central: o ebola. Dessa vez a crise não aconteceu de fato e passou, como o vírus, de forma bastante rápida. Mas não sem antes espalhar o medo pelo mundo.
Entre 1997 e 1999 breves doses de novas crises, mas foi possível chegar com certa tranquilidade ao novo milênio. Veio o medo do Bug do ano 2000, queda nas bolsas; em 2001 o atentado do dia 11 de setembro e um mundo preocupado com a segurança, no mesmo ano os Estados Unidos invadiram o Afeganistão e dois anos depois o Iraque também estava explosivo – o que resultou no alto preço do petróleo. Nos anos seguintes a Ásia balançou, a crise voltou a atingir América Latina, a Rússia e chegou à Europa. Foi nessa época que a gripe das aves foi identificada em humanos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou o mundo para o risco de uma nova pandemia, gastou-se milhões com remédios e vacinas. Possivelmente o dinheiro que circulou devido ao medo do terrorismo e da “nova” gripe tenha contribuído para reanimar o mercado internacional nesse começo de século. A tempestade passou, veio a calmaria.
E tudo ia bem até o ano de 2008, quando uma nova crise chegou. Todos os jornais do mundo noticiaram o infeliz momento da economia global – cada vez mais integrada e virtual. Bancos quebraram, empresas pediram ajuda aos governos, as maiores economias do mundo entraram em recessão. Dessa vez, os países em desenvolvimento sentiram menos o impacto da crise e continuaram a vida a seu modo. Foi quando, no México, uma nova doença foi identificada: a gripe suína – mais tarde chamada de Influenza A, H1N1. Logo o medo da pandemia estava na cara das pessoas, nas capas dos jornais, nos anúncios da TV. O vírus alcançou as maiores cidades do mundo em pouco tempo, mas se adaptou mesmo foi ao inverno gelado dos países do hemisfério sul – milhares de casos registrados na Argentina e no Chile.
A gripe, apesar de ter tirado a vida de muita gente, gerou dinheiro e emprego – como todas as outras doenças e guerras que conhecemos. Os governos dos países atingidos ou não, pelo vírus, passaram a comprar grandes doses de medicamentos e acessórios para uma possível “prevenção”. O dinheiro do mundo voltou a circular. O comércio exterior não parou como ameaçava meses antes. Mais uns meses e alguns países saíram da recessão. E a melhor notícia: a vacina está quase pronta para o uso, em tempo de impedir que a gripe alcance os países do hemisfério norte durante o inverno que está por vir.
Mais uma vez a crise dá sinal de que logo vai passar – já é possível ver no noticiário que algumas economias mundiais saíram do vermelho –, e o número de casos de gripe tem diminuído por aqui.
Revendo o passado, ligando os pontos, pode-se pensar numa relação entre economia e saúde – não é de hoje que esses dois assuntos andam juntos. A gripe espanhola, por exemplo, foi identificada logo após a Primeira Guerra Mundial por volta de 1918. A gripe aviária, na Ásia, já havia aparecido nos anos 60 – durante a disputa Estados Unidos x União Soviética e as guerras no Vietnã e na península da Coreia. O ebola também já havia afetado alguns povos da África no ano de 1976.
Talvez nossa História seja mesmo cíclica – com umas poucas mutações.
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11 de set. de 2009
Desde aquele dia 11
Já passava das 9h quando fui acordado com aquela agitação pedindo que ligasse a TV. Abri os olhos, meio perdido, e apertei o botão vermelho do controle remoto. Na tela um avião acabava de atingir um prédio em Nova York. Logo depois, outro. O edifício se desfez e queimou de um jeito que pôde ser visto até do espaço.
Passado o momento trágico do plantão da semana, soube que encontraram no meio de tudo aquilo que caiu e queimou, o passaporte de um dos sequestradores do avião. Parece que o tal cara tinha ligações com uma organização chamada AlQaeda – que não era tão conhecida como é hoje. Algum tempo depois era o 43º presidente dos Estados Unidos que falava do assunto e dava nome aos bois. George Bush, o filho, dizia que Osama bin Laden era o líder daquela organização e, agora, o inimigo público número um.
Iniciavam ali uma nova cruzada. Tempos depois o contra-ataque começava. O Afeganistão estava cheio de soldados, alvos errados atingidos, destruição e gente pulando o muro na fronteira. O Iraque também virou alvo. Sob a hipotética ameaça de armas químicas – nunca encontradas – Saddam Hussein foi caçado e morto, enforcado no dia 31 de dezembro de 2006. A democracia foi imposta e quase funciona até os dias atuais – com eventuais ataques explosivos. As bombas pipocando em Bagdá ou em Cabul foram das mais impopulares e, hoje, oito anos depois, o inimigo continua desaparecido.
O tal Osama nunca foi encontrado. De vez em quando novos vídeos em que ele discursa aparecem na grande mídia. “Exclusivo! Osama diz...”, isso me lembra aquele filme Mera Coincidência (Wag the Dog, 1997), onde Robert De Niro interpreta um marketeiro contratado para que o presidente não perca as eleições por conta de um escândalo. A solução, no filme, foi criar uma guerra fictícia na Albânia – com personagens feitos para ganhar o público.
Aquela história iniciada em 11 de setembro de 2001, longe das teorias conspiratórias que vemos por aí, foi encerrada com um fade-in sobre a histórias das vítimas – do atentado e das guerras –, os créditos subiram e restou uma certa dose de suspense quanto ao que aconteceu com o cara-mau ficou no ar.
Passado o momento trágico do plantão da semana, soube que encontraram no meio de tudo aquilo que caiu e queimou, o passaporte de um dos sequestradores do avião. Parece que o tal cara tinha ligações com uma organização chamada AlQaeda – que não era tão conhecida como é hoje. Algum tempo depois era o 43º presidente dos Estados Unidos que falava do assunto e dava nome aos bois. George Bush, o filho, dizia que Osama bin Laden era o líder daquela organização e, agora, o inimigo público número um.
Iniciavam ali uma nova cruzada. Tempos depois o contra-ataque começava. O Afeganistão estava cheio de soldados, alvos errados atingidos, destruição e gente pulando o muro na fronteira. O Iraque também virou alvo. Sob a hipotética ameaça de armas químicas – nunca encontradas – Saddam Hussein foi caçado e morto, enforcado no dia 31 de dezembro de 2006. A democracia foi imposta e quase funciona até os dias atuais – com eventuais ataques explosivos. As bombas pipocando em Bagdá ou em Cabul foram das mais impopulares e, hoje, oito anos depois, o inimigo continua desaparecido.
O tal Osama nunca foi encontrado. De vez em quando novos vídeos em que ele discursa aparecem na grande mídia. “Exclusivo! Osama diz...”, isso me lembra aquele filme Mera Coincidência (Wag the Dog, 1997), onde Robert De Niro interpreta um marketeiro contratado para que o presidente não perca as eleições por conta de um escândalo. A solução, no filme, foi criar uma guerra fictícia na Albânia – com personagens feitos para ganhar o público.
Aquela história iniciada em 11 de setembro de 2001, longe das teorias conspiratórias que vemos por aí, foi encerrada com um fade-in sobre a histórias das vítimas – do atentado e das guerras –, os créditos subiram e restou uma certa dose de suspense quanto ao que aconteceu com o cara-mau ficou no ar.
6 de set. de 2009
Ouviram do Ipiranga e nem mais um pio
O Dia da Independência é só mais uma folga no calendário do Brasil. Dom Pedro parece não ter dado muita importância, Portugal não bateu pé, e foi algo tão calmo e natural que não se tem o que comemorar. Nem a quem homenagear. Não houve luta nem paixões, apenas um homem num cavalo à margem de um rio. Simplesmente o Brasil fez as malas, deixou Portugal, e foi morar sozinho naquele 7 de setembro de 1822. Foi o que contaram na escola.
E conhecendo a história por esse ponto de vista, é difícil imaginar qual estudante tem vontade de pular da cama ao cantar do galo, num feriado, para participar de um desfile com um toque de militarismo. Eu, que sempre assisti da plateia – quando não ficava em casa dormindo –, lembro deles:
— Todas as manhãs do dia sete de setembro estarão lá, na avenida, sonolentos, em marcha, ao som de fanfarras desajustadas e carregando uma única bandeira, sem cor: passar de ano.
Desfile da Independência de setembro de 2008 em Tubarão (SC).
Imagens: Anderson Paes
Não é de hoje que escolas públicas e particulares oferecem uns pontos por fora para que seus alunos participem deste grande dia da pátria. E é mesmo difícil encontrar motivação, senão essa, para que acordem cedo e comemorem a conveniente liberdade que herdamos.
E essa prática inocente se repete a cada ano. A mesma prática que se torna intolerável no cenário político, por vezes tão parecido com o ambiente de uma sala de aula. Todo aquele sussurro, conchavo – sem falar das férias duas vezes por ano e da bagunça que fazem –, que só pode ser mudado pelo voto popular. Triste que muitos votos partam daqueles que não se importam com a chantagem da mesma pátria mãe gentil e vão marchar por esmolas ao conhecimento.
Um estranho e infeliz patriotismo.
Publicado às 22:13 (-3 GMT) em Tubarão - SC, Brasil
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7 de Setembro,
Brasil,
Educação,
História,
Independência,
Opinião,
Redação,
Vídeo
E conhecendo a história por esse ponto de vista, é difícil imaginar qual estudante tem vontade de pular da cama ao cantar do galo, num feriado, para participar de um desfile com um toque de militarismo. Eu, que sempre assisti da plateia – quando não ficava em casa dormindo –, lembro deles:
— Todas as manhãs do dia sete de setembro estarão lá, na avenida, sonolentos, em marcha, ao som de fanfarras desajustadas e carregando uma única bandeira, sem cor: passar de ano.
Desfile da Independência de setembro de 2008 em Tubarão (SC).
Imagens: Anderson Paes
Não é de hoje que escolas públicas e particulares oferecem uns pontos por fora para que seus alunos participem deste grande dia da pátria. E é mesmo difícil encontrar motivação, senão essa, para que acordem cedo e comemorem a conveniente liberdade que herdamos.
E essa prática inocente se repete a cada ano. A mesma prática que se torna intolerável no cenário político, por vezes tão parecido com o ambiente de uma sala de aula. Todo aquele sussurro, conchavo – sem falar das férias duas vezes por ano e da bagunça que fazem –, que só pode ser mudado pelo voto popular. Triste que muitos votos partam daqueles que não se importam com a chantagem da mesma pátria mãe gentil e vão marchar por esmolas ao conhecimento.
Um estranho e infeliz patriotismo.
Publicado às 22:13 (-3 GMT) em Tubarão - SC, Brasil
30 de ago. de 2009
Para alguém que vai
De tempos em tempos as pessoas passam por uma sensação de que é hora de partir pra algum lugar – acredito que muitos vivam isso. Mas acabam ocupados com outras coisas e adiam um pouco mais. Outros desistem pelas oportunidades que faltam. É algo forte essa vontade de conhecer o mundo, as pessoas, as culturas, os diferentes cenários dessa peça que a vida prega. Encontrar explicações, contar o que se vê, entender o que não se sabe. Aprender.
Interessa ouvir o que ainda não foi dito, escrever o que não foi escrito. Ruma-se ao desconhecido em troca de algo novo, como faziam os antigos. Todos os grandes pensadores cruzaram o Atlântico, viajaram pelo Pacífico, visitaram o Índico, subiram montes, vaguearam por aí. Fizeram as viagens possíveis para os meios de transporte da época, não importava o tempo do trajeto.
E não tem idade para fazer isso, sempre há tempo. René Descartes, com as tropas holandesas, os ingleses que partiram para a América do Norte com ideais de liberdade, Albert Einstein que passou até pelo Brasil, Charles Darwin observando o mundo. Sem falar dos anônimos, grande maioria, que mudam o mundo aos poucos. São raros os que fizeram algo maior sem sair de casa – apesar dos avanços tecnológicos.
O pensamento se amplia, o mundo das idéias deixa de ser apenas ideal, e a vontade de voltar às vezes se perde. Nem todos trilham o caminho de volta, sentem-se em casa. Sinta-se bem ao chegar lá. Faça algo bom e conte ao mundo. E quando surgir a vontade de voltar, lembra que sempre há tempo – para isso também – e que o mundo é uma casa maior. Nossa casa.
Até a volta!
Publicado às 09:26 (-3 GMT) em Tubarão - SC, Brasil
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Mudar o Mundo,
Redação,
Tempo,
Viajar
Interessa ouvir o que ainda não foi dito, escrever o que não foi escrito. Ruma-se ao desconhecido em troca de algo novo, como faziam os antigos. Todos os grandes pensadores cruzaram o Atlântico, viajaram pelo Pacífico, visitaram o Índico, subiram montes, vaguearam por aí. Fizeram as viagens possíveis para os meios de transporte da época, não importava o tempo do trajeto.
E não tem idade para fazer isso, sempre há tempo. René Descartes, com as tropas holandesas, os ingleses que partiram para a América do Norte com ideais de liberdade, Albert Einstein que passou até pelo Brasil, Charles Darwin observando o mundo. Sem falar dos anônimos, grande maioria, que mudam o mundo aos poucos. São raros os que fizeram algo maior sem sair de casa – apesar dos avanços tecnológicos.
O pensamento se amplia, o mundo das idéias deixa de ser apenas ideal, e a vontade de voltar às vezes se perde. Nem todos trilham o caminho de volta, sentem-se em casa. Sinta-se bem ao chegar lá. Faça algo bom e conte ao mundo. E quando surgir a vontade de voltar, lembra que sempre há tempo – para isso também – e que o mundo é uma casa maior. Nossa casa.
Até a volta!
Publicado às 09:26 (-3 GMT) em Tubarão - SC, Brasil
25 de ago. de 2009
Não foi por medo de avião
No último domingo, um dia típico de sofá e controle remoto, assisti a reportagem do Fantástico que falava do sumiço de Belchior. Depois de tanta gente nem tão preocupada assim com a história, dá até para pensar que pode ser uma jogada para voltar a aparecer na TV. Quem sabe neste fim de mês ele “apareça” nos programas vespertinos de assuntos nem tão relevantes.
Mas Antônio Carlos Gomes Belchior, assim como outros nomes da música brasileira que são pouco ou quase nada valorizados por aqui, não precisa de polêmica para que seus fãs conheçam seus nos trabalhos. Ele, Tom Zé, Fágner e Juca Chaves, por exemplo, ainda contam com seus públicos para isso. Seguem com suas apresentações por aqui e de vez em quando aparecem num Programa do Jô ou algo parecido. Afinal, nunca foram personagens populares – ou populistas –, desses que passam os domingos em programas de auditório.
Na segunda-feira o assunto curioso continuou na internet, no site de notícias da TV Globo, leitores contaram que viram Belchior por vários lugares do país e até no Uruguai. No Twitter, as brincadeiras já surgiram: Belchior no elenco da série Lost e até mesmo uma certa viagem com os outros “reis magos”.
Ainda no mundo da música, Belchior nos últimos anos tem sido ouvido por um público mais novo. Com suas músicas “A palo seco” na voz de Marcelo Camelo (Los Hermanos) e “Alucinação” por Humberto Gessinger (Engenheiros do Hawaii). Esta última, citei certa vez aqui no blog: “Amar e mudar as coisas me interessa mais” – que talvez seja a melhor resposta para alguém desaparecer.
Bom, pode-se dizer que o rapaz latino americano perdeu seu medo de avião.
Mas Antônio Carlos Gomes Belchior, assim como outros nomes da música brasileira que são pouco ou quase nada valorizados por aqui, não precisa de polêmica para que seus fãs conheçam seus nos trabalhos. Ele, Tom Zé, Fágner e Juca Chaves, por exemplo, ainda contam com seus públicos para isso. Seguem com suas apresentações por aqui e de vez em quando aparecem num Programa do Jô ou algo parecido. Afinal, nunca foram personagens populares – ou populistas –, desses que passam os domingos em programas de auditório.
Na segunda-feira o assunto curioso continuou na internet, no site de notícias da TV Globo, leitores contaram que viram Belchior por vários lugares do país e até no Uruguai. No Twitter, as brincadeiras já surgiram: Belchior no elenco da série Lost e até mesmo uma certa viagem com os outros “reis magos”.
Ainda no mundo da música, Belchior nos últimos anos tem sido ouvido por um público mais novo. Com suas músicas “A palo seco” na voz de Marcelo Camelo (Los Hermanos) e “Alucinação” por Humberto Gessinger (Engenheiros do Hawaii). Esta última, citei certa vez aqui no blog: “Amar e mudar as coisas me interessa mais” – que talvez seja a melhor resposta para alguém desaparecer.
Bom, pode-se dizer que o rapaz latino americano perdeu seu medo de avião.
21 de ago. de 2009
O esperado dia do eclipse
No dia 17 de agosto de 1989, a Lua se apagou completamente no céu. Quatro dias depois (21), Raul Seixas partiu numa viagem interestelar – como dizem alguns fãs. Coincidência ou não, no dia 25 daquele mês a sonda espacial Voyager 2 chegou ao planeta Netuno...
Raul, diferente do que as reportagens de hoje vão dizer, foi além da música. Questionou o Universo, o Homem, a Fé. Formou e informou muita gente do que é o início, meio e fim deste mundo que não quer parar. Contou das coisas que viu, leu e aprendeu – ensinou assim.
Alguns o chamaram de profeta do apocalipse, outros acusaram de todos os tipos de bruxaria. Provavelmente teria sido queimado vivo nos tempos da inquisição. Um alquimista das palavras. Raul experimentou este mundo, sem frescura. Avisou que só o entenderiam “no esperado dia do eclipse”. Talvez por algum motivo que ele já soubesse, talvez aquela tal “velocidade da luz pra alcançar”.
Hoje, 20 anos depois, Raul ainda é citado, cantado, pedido – “Toca Raul” até virou tema de música –, e continua abrindo cabeças, lembrando ideias quase esquecidas por aqui.
Naquela semana em que a Lua se apagou, seus fãs disseram “até a próxima” e até um repórter compartilhou e sentiu aquela despedida (vídeo). No dia 31, ainda em 1989, o Sol também se apagou.
Raul, diferente do que as reportagens de hoje vão dizer, foi além da música. Questionou o Universo, o Homem, a Fé. Formou e informou muita gente do que é o início, meio e fim deste mundo que não quer parar. Contou das coisas que viu, leu e aprendeu – ensinou assim.
Alguns o chamaram de profeta do apocalipse, outros acusaram de todos os tipos de bruxaria. Provavelmente teria sido queimado vivo nos tempos da inquisição. Um alquimista das palavras. Raul experimentou este mundo, sem frescura. Avisou que só o entenderiam “no esperado dia do eclipse”. Talvez por algum motivo que ele já soubesse, talvez aquela tal “velocidade da luz pra alcançar”.
Hoje, 20 anos depois, Raul ainda é citado, cantado, pedido – “Toca Raul” até virou tema de música –, e continua abrindo cabeças, lembrando ideias quase esquecidas por aqui.
Naquela semana em que a Lua se apagou, seus fãs disseram “até a próxima” e até um repórter compartilhou e sentiu aquela despedida (vídeo). No dia 31, ainda em 1989, o Sol também se apagou.
9 de ago. de 2009
Notícias de sempre
Aqueles jornais das sete da noite são iguais em todos os lugares? Lembro dos cliques no controle remoto de quando passei por Recife, Curitiba e Rio de Janeiro; e os telejornais locais, que chegam de Florianópolis ou Criciúma, seguem modelos parecidos: muito acidente de trânsito, polícia, sangue e um pouco de “variedades”.
Aqui parece que não existem notícias regionais que façam a diferença no horário. Uma vez ou outra que aparecem assuntos diferentes – sem contar a gripe. Porém, são raras as matérias sobre a economia e a política estadual. Não que a política catarinense seja das mais interessantes, mas alguma coisa importante aqueles deputados devem fazer – ou não?
A questão é que os jornais da TV, desse horário, parecem apenas divulgar uma ou outra notícia curta – há uma rotina noticiosa. Talvez pelo pouco tempo, não sobre espaço para comentários inteligentes e oportunos. Só apresentações com uma entonação forçada. Mas se o motivo fosse mesmo o tempo, os jornais que passam ao meio-dia, e duram mais, seriam melhores.
Na economia, poderiam nos contar das relações de Santa Catarina com os Estados vizinhos; os tratados e acordos que os últimos governadores tanto assinaram em viagens variadas; além do que se vê sobre a exportação de frango – será essa a única atividade que vira notícia em SC?
Pouco também da cultura diversificada dessa terra. Quase não se sabe das regiões Oeste e Meio-Oeste aqui no Sul do Estado. Quase não se sabe de nada com esses jornais.
Como escreveu Hunter S. Thompson certa vez: “tenha cuidado, não preste atenção no noticiário, mantenha-se puro”. Melhor buscar as notícias daqui e as boas histórias na internet ou num bom jornal impresso – caso encontre algum.
Aqui parece que não existem notícias regionais que façam a diferença no horário. Uma vez ou outra que aparecem assuntos diferentes – sem contar a gripe. Porém, são raras as matérias sobre a economia e a política estadual. Não que a política catarinense seja das mais interessantes, mas alguma coisa importante aqueles deputados devem fazer – ou não?
A questão é que os jornais da TV, desse horário, parecem apenas divulgar uma ou outra notícia curta – há uma rotina noticiosa. Talvez pelo pouco tempo, não sobre espaço para comentários inteligentes e oportunos. Só apresentações com uma entonação forçada. Mas se o motivo fosse mesmo o tempo, os jornais que passam ao meio-dia, e duram mais, seriam melhores.
Na economia, poderiam nos contar das relações de Santa Catarina com os Estados vizinhos; os tratados e acordos que os últimos governadores tanto assinaram em viagens variadas; além do que se vê sobre a exportação de frango – será essa a única atividade que vira notícia em SC?
Pouco também da cultura diversificada dessa terra. Quase não se sabe das regiões Oeste e Meio-Oeste aqui no Sul do Estado. Quase não se sabe de nada com esses jornais.
Como escreveu Hunter S. Thompson certa vez: “tenha cuidado, não preste atenção no noticiário, mantenha-se puro”. Melhor buscar as notícias daqui e as boas histórias na internet ou num bom jornal impresso – caso encontre algum.
7 de ago. de 2009
Feito formigas em dia de chuva
O silêncio das noites de uma cidade pequena, a escuridão quebrada por um distante semáforo a piscar pode se repetir nas outras noites desta segunda semana de agosto. Durante o dia, a movimentada Avenida Marcolino Martins Cabral, no centro de Tubarão (SC), perde alguns de seus carros barulhentos e mostra seu asfalto.
A cidade não parou completamente, mas a decisão da governo municipal de suspender as aulas nas escolas públicas fez com que outras entidades particulares tomassem a mesma atitude.
Um basta na coletividade, nos cumprimentos calorosos, na preguiça de lavar as mãos. O medo real e concreto fez mudar algumas atitudes sociais. E apesar de ouvir por aí que a nova gripe mata tanto quanto a velha conhecida, as pessoas estão desconfiadas com tantos números e más notícias repetidas.
Aqui em Tubarão, cidade com menos de 100 mil habitantes, já são mais de 100 casos suspeitos, alguns confirmados – inclusive uma morte –, e outros ocultos. Sim, existem casos ocultos nessa história de pandemia. Para evitar o pânico. Afinal, gente em pânico é como uma decisão unânime do Congresso: irracional.
Nos dois hospitais da cidade e numa outra clínica particular, as pessoas recorreram à máscara. Trocam olhares desconfiados, tossem disfarçadamente. Até nos elevadores, nos prédios residenciais, parecem todos agitados, com pressa – feito formigas em dia de chuva. O medo tomou conta. Fez meio mundo parar e está nos olhares.
E a chuva, que de longe assustava, chegou.
Publicado às 19:21 (-3 GMT) em Tubarão - SC, Brasil
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A cidade não parou completamente, mas a decisão da governo municipal de suspender as aulas nas escolas públicas fez com que outras entidades particulares tomassem a mesma atitude.
Um basta na coletividade, nos cumprimentos calorosos, na preguiça de lavar as mãos. O medo real e concreto fez mudar algumas atitudes sociais. E apesar de ouvir por aí que a nova gripe mata tanto quanto a velha conhecida, as pessoas estão desconfiadas com tantos números e más notícias repetidas.
Aqui em Tubarão, cidade com menos de 100 mil habitantes, já são mais de 100 casos suspeitos, alguns confirmados – inclusive uma morte –, e outros ocultos. Sim, existem casos ocultos nessa história de pandemia. Para evitar o pânico. Afinal, gente em pânico é como uma decisão unânime do Congresso: irracional.
Nos dois hospitais da cidade e numa outra clínica particular, as pessoas recorreram à máscara. Trocam olhares desconfiados, tossem disfarçadamente. Até nos elevadores, nos prédios residenciais, parecem todos agitados, com pressa – feito formigas em dia de chuva. O medo tomou conta. Fez meio mundo parar e está nos olhares.
E a chuva, que de longe assustava, chegou.
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6 de ago. de 2009
América Latina e outro continente a sua escolha
Nos dias de chuva ou quando todos tinham vontade, alguns amigos se reuniam e continuavam uma partida de War, que começaram havia um certo tempo. Resolveram deixar os objetivos das cartas de lado e tentar dominar o mundo – mesmo sabendo que o jogo se tornaria quase interminável. Mas estavam de férias, então continuaram.
No sorteio das cartas ele havia tirado “América Latina e outro continente a sua escolha”, mas com a decisão de conquistar o mundo todo, fez pouco caso e jogou. Num lance de dados, tio Sam começa a avançar para o sul do Caribe. Era a parte que faltava para sua estratégia, pois não há mais perigo de reação do velho Kremlin – agora roncando – com suas poucas peças na Ásia.
A Europa, depois de anos lutando contra os dados que eram jogados por lá, se rebelou e acumulou peças, conquistou parte da África e hoje vive sem grandes objetivos nesse tabuleiro. Quase o mundo todo já foi vencido, pelas armas ou pelos ideais e culturas. Até a China se deixou invadir.
De vez em quando ainda se ouve reações de pequenos exércitos querendo lançar seus dados contra o sempre atento e hiperativo tio Sam. Batem na mesa e jogam sem saber que logo perderão suas últimas pedras coloridas.
A entrada do exército do Norte no território sul americano, ao que tudo indica – depois de algumas rodadas –, será pelos Andes. Ali perto, um último combatente ameaça contra-atacar. Huguito, como é chamado pelos amigos da mesa – com seu sorriso sarcástico estampado na cara –, vive reclamando das novas regras do jogo e ainda pensa em liderar a América do Sul. Os demais jogadores parecem aceitar a vitória e querem apenas cuidar do que têm, travando pequenas batalhas regionais – para que os jogadores mais exaltados não queiram acabar com o tabuleiro e recomeçar a partida.
Quando o clima começa a esquentar, a mãe de Europa, Terra, traz um lanche e suco para acalmar os jogadores. Ainda assim, de vez em quando, discutem. Foi o que aconteceu com um velho amigo chamado Hussein, que brigou com todo mundo e quase partiu para a agressão – acabou mandado embora pelos outros colegas, antes que a coisa piorasse. Depois de momentos assim, os amigos deixam o tabuleiro de lado e vão brincar com seus foguetes de água, nadar, contar piadas, jogar bola – chamam de Olimpíadas.
Dia desses, Terra chegou em casa dizendo que tinha pouca coisa para oferecer e que estava em crise. Os jogadores ficaram desanimados e resolveram ajudá-la nas tarefas do lar. “Depois a gente termina, vamos brincar”, chamou um dos mais novos jogadores, Luís.
Luís não parecia muito preocupado. “É só um jogo!”, repetia – tentando controlar seus amigos, os irmãos Álvaro e Huguito, que haviam discutido dias antes quando um quis atacar o território do outro. Álvaro, que controlava os Andes e perdeu nos dados para o tio Sam, chamou Luís para uma conversa – estava preocupado com as reações nervosas do irmão.
Sorridente e não compreendendo bem o espanhol do colega andino, Luís tratou de acalmar a todos contando que havia encontrado algo interessante em seu quintal. Tio Sam disfarçou, como se deixasse o assunto com Álvaro esfriar, e foi logo conversar com Luís. Ofereceu uns brinquedos em troca do novo achado e estão até agora conversando.
Qualquer dia eles voltam para o tabuleiro.
No sorteio das cartas ele havia tirado “América Latina e outro continente a sua escolha”, mas com a decisão de conquistar o mundo todo, fez pouco caso e jogou. Num lance de dados, tio Sam começa a avançar para o sul do Caribe. Era a parte que faltava para sua estratégia, pois não há mais perigo de reação do velho Kremlin – agora roncando – com suas poucas peças na Ásia.
A Europa, depois de anos lutando contra os dados que eram jogados por lá, se rebelou e acumulou peças, conquistou parte da África e hoje vive sem grandes objetivos nesse tabuleiro. Quase o mundo todo já foi vencido, pelas armas ou pelos ideais e culturas. Até a China se deixou invadir.
De vez em quando ainda se ouve reações de pequenos exércitos querendo lançar seus dados contra o sempre atento e hiperativo tio Sam. Batem na mesa e jogam sem saber que logo perderão suas últimas pedras coloridas.
A entrada do exército do Norte no território sul americano, ao que tudo indica – depois de algumas rodadas –, será pelos Andes. Ali perto, um último combatente ameaça contra-atacar. Huguito, como é chamado pelos amigos da mesa – com seu sorriso sarcástico estampado na cara –, vive reclamando das novas regras do jogo e ainda pensa em liderar a América do Sul. Os demais jogadores parecem aceitar a vitória e querem apenas cuidar do que têm, travando pequenas batalhas regionais – para que os jogadores mais exaltados não queiram acabar com o tabuleiro e recomeçar a partida.
Quando o clima começa a esquentar, a mãe de Europa, Terra, traz um lanche e suco para acalmar os jogadores. Ainda assim, de vez em quando, discutem. Foi o que aconteceu com um velho amigo chamado Hussein, que brigou com todo mundo e quase partiu para a agressão – acabou mandado embora pelos outros colegas, antes que a coisa piorasse. Depois de momentos assim, os amigos deixam o tabuleiro de lado e vão brincar com seus foguetes de água, nadar, contar piadas, jogar bola – chamam de Olimpíadas.
Dia desses, Terra chegou em casa dizendo que tinha pouca coisa para oferecer e que estava em crise. Os jogadores ficaram desanimados e resolveram ajudá-la nas tarefas do lar. “Depois a gente termina, vamos brincar”, chamou um dos mais novos jogadores, Luís.
Luís não parecia muito preocupado. “É só um jogo!”, repetia – tentando controlar seus amigos, os irmãos Álvaro e Huguito, que haviam discutido dias antes quando um quis atacar o território do outro. Álvaro, que controlava os Andes e perdeu nos dados para o tio Sam, chamou Luís para uma conversa – estava preocupado com as reações nervosas do irmão.
Sorridente e não compreendendo bem o espanhol do colega andino, Luís tratou de acalmar a todos contando que havia encontrado algo interessante em seu quintal. Tio Sam disfarçou, como se deixasse o assunto com Álvaro esfriar, e foi logo conversar com Luís. Ofereceu uns brinquedos em troca do novo achado e estão até agora conversando.
Qualquer dia eles voltam para o tabuleiro.
31 de jul. de 2009
A mais perfeita mesmice, não fosse o Gardel
O sol vai se pondo e estou quase em casa. De volta a Tubarão. Nasci nessa cidade do sul de Santa Catarina, no início dos anos oitenta. De lá pra cá muita coisa mudou – mas não nos últimos anos. Foram quase dois anos fora e quando chego vejo as obras ainda atrasadas da BR-101, o excesso de carros na principal avenida da cidade e umas poucas pessoas que ainda reconheço nas ruas.
Uns três mercados, o shopping e o ex-shopping ainda figuram no centro. Nas ruas de cá, malabaristas no semáforo. Disseram-me por aqui que agora temos mais do que o velho nada para fazer a noite, mas a cidade nunca foi da noite – deve ser o mesmo lugar com novo nome. Melhor ir ver de perto – mas sem pressa. Também contaram que houve algumas mudanças na política, desde as últimas eleições. Mas a cidade também nunca foi muito disso. O que me levou a pensar: Se nem os nomes mudaram...
Tudo na mais perfeita mesmice, não fosse o fato de acordar todas as manhãs ao som Carlos Gardel – que algum vizinho colocava por volta das 9h. Um bom modo de acordar. Depois de uns dias de tango, encontrei um novo lugar para morar. No centro, agora com uma trilha mais mecânica – a das construções por perto. Muda-se a trilha e o jeitão da vizinhança. Aqui ainda é a de um bairro residencial de uma cidade pequena. Outra noite um vizinho gritava:
— Ah! Vai chover chumbinho. Cala a boca...
Tudo isso por causa de um pequeno cachorro que não parava de latir do lado de lá da rua. Pobre cachorro, apenas latia naturalmente. Algumas pessoas se incomodam com tão pouco e esquecem o que realmente pode mudar a vida. Com uma vizinhança assim, poderia esperar mudanças significativas para a terra amada e bendita Tubarão?
Quem sabe quando as pessoas começarem a ter acesso às novas culturas ou encontrarem novas identidades – sem esquecer do bom senso e tolerância que faz uma “grande” cidade. “Mas é mais fácil ir embora do que mudar as coisas” – alguns insistem. Mas... mas sempre há espaço para novas ideias, novas cabeças, para amar e mudar as coisas – como na música de Belchior –, e outras canções para se ouvir.
Publicado às 17:22 (-3 GMT) em Tubarão - SC, Brasil
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Tubarão
Uns três mercados, o shopping e o ex-shopping ainda figuram no centro. Nas ruas de cá, malabaristas no semáforo. Disseram-me por aqui que agora temos mais do que o velho nada para fazer a noite, mas a cidade nunca foi da noite – deve ser o mesmo lugar com novo nome. Melhor ir ver de perto – mas sem pressa. Também contaram que houve algumas mudanças na política, desde as últimas eleições. Mas a cidade também nunca foi muito disso. O que me levou a pensar: Se nem os nomes mudaram...
Tudo na mais perfeita mesmice, não fosse o fato de acordar todas as manhãs ao som Carlos Gardel – que algum vizinho colocava por volta das 9h. Um bom modo de acordar. Depois de uns dias de tango, encontrei um novo lugar para morar. No centro, agora com uma trilha mais mecânica – a das construções por perto. Muda-se a trilha e o jeitão da vizinhança. Aqui ainda é a de um bairro residencial de uma cidade pequena. Outra noite um vizinho gritava:
— Ah! Vai chover chumbinho. Cala a boca...
Tudo isso por causa de um pequeno cachorro que não parava de latir do lado de lá da rua. Pobre cachorro, apenas latia naturalmente. Algumas pessoas se incomodam com tão pouco e esquecem o que realmente pode mudar a vida. Com uma vizinhança assim, poderia esperar mudanças significativas para a terra amada e bendita Tubarão?
Quem sabe quando as pessoas começarem a ter acesso às novas culturas ou encontrarem novas identidades – sem esquecer do bom senso e tolerância que faz uma “grande” cidade. “Mas é mais fácil ir embora do que mudar as coisas” – alguns insistem. Mas... mas sempre há espaço para novas ideias, novas cabeças, para amar e mudar as coisas – como na música de Belchior –, e outras canções para se ouvir.
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8 de jul. de 2009
O sentido (horário) da vida
As pessoas nascem, comem e enchem as fraldas. Crescem, são educadas – não importa como, são sempre educadas de forma errada; alguém disse isso uma vez. Passam a ser adolescentes, pensam só em sexo e continuam estudando. Chegam à idade adulta, depois de um período de crise entre razão e emoção, e procuram fazer algo útil para o mundo – nem que seja para o seu próprio mundo.
Adultos, percebem que nem todas as crises foram superadas. Alguns fazem terapia, outros pulam da ponte. Se apaixonam, sofrem, ficam felizes e pensam na vida a dois. Pensam em como vai ficar orçamento do lar, em se aposentar pela assistência social, no imóvel financiado na Caixa, numa vida de comercial de margarina.
Até que chegam os filhos. Que nascem, comem, enchem as fraldas, crescem, são mal educados, pensam em sexo, viram adultos, se apaixonam, sofrem, ficam felizes, têm filhos, etc. E começa tudo outra vez.
Agora as coisas se misturam e as gerações entram em conflito, com doses de harmonia. Tudo ao mesmo tempo. Nessas horas o tempo acelera. Sem volta e sem relatividade.
Adultos, percebem que nem todas as crises foram superadas. Alguns fazem terapia, outros pulam da ponte. Se apaixonam, sofrem, ficam felizes e pensam na vida a dois. Pensam em como vai ficar orçamento do lar, em se aposentar pela assistência social, no imóvel financiado na Caixa, numa vida de comercial de margarina.
Até que chegam os filhos. Que nascem, comem, enchem as fraldas, crescem, são mal educados, pensam em sexo, viram adultos, se apaixonam, sofrem, ficam felizes, têm filhos, etc. E começa tudo outra vez.
Agora as coisas se misturam e as gerações entram em conflito, com doses de harmonia. Tudo ao mesmo tempo. Nessas horas o tempo acelera. Sem volta e sem relatividade.
Eis o mistério da fé
Dizem que o paraíso fica lá pros lados da Bahia. Não quero nem imaginar pra onde fica o inferno, mas é capaz de estar no Brasil também. O purgatório, lugar de parada para os que deixaram este mundo e esperam o julgamento final, faliu. O Papa anunciou que esta parada obrigatória para alguns deixou de existir. Não vi a cópia do Divino Fax – firmada em cartório – mas acredito.
E pra ter falido uma instituição tão antiga quanto essa – e olha que já faz algum tempo, nem foi culpa da crise –, ela deve ter sido muito mal administrada. Imagino que os réus que lá esperavam foram todos amparados por advogados brasileiros – nas leis da Terra de Vera Cruz, como lembra o amigo Eduardo Daniel. É possível que todos tenham conseguido habeas corpus e foram esperar no paraíso – céu azul, água de coco e um mar claro e quente do nordeste.
Outros dizem que o mandatário da casa empregou uns parentes e não quis sair de lá nem com vaga assegurada no paraíso. Eis que então o cara lá de cima resolveu chamá-lo pra uma conversa e deu no que deu. Mais uma instituição pública às moscas e gente desconfiada por toda parte. Melhor dizer que acabou mesmo.
E pra ter falido uma instituição tão antiga quanto essa – e olha que já faz algum tempo, nem foi culpa da crise –, ela deve ter sido muito mal administrada. Imagino que os réus que lá esperavam foram todos amparados por advogados brasileiros – nas leis da Terra de Vera Cruz, como lembra o amigo Eduardo Daniel. É possível que todos tenham conseguido habeas corpus e foram esperar no paraíso – céu azul, água de coco e um mar claro e quente do nordeste.
Outros dizem que o mandatário da casa empregou uns parentes e não quis sair de lá nem com vaga assegurada no paraíso. Eis que então o cara lá de cima resolveu chamá-lo pra uma conversa e deu no que deu. Mais uma instituição pública às moscas e gente desconfiada por toda parte. Melhor dizer que acabou mesmo.
1 de jul. de 2009
Um presidente literário!
Desde a campanha para a presidência em 2002 que ouvimos as várias metáforas de Luís Inácio Lula da Silva. São sete anos de um vasto repertório, para todo tipo de situação. Do arroz com feijão na Bahia ao momento crítico que vive o Irã. A grande maioria faz referência ao futebol. Um livro de metáforas presidenciais cairia bem – com prefácio dele, claro.
Fico imaginando as próximas eleições. Dilma Rousseff, que vai contar com o apoio de Lula, usará novas metáforas? Diz-se que em time que está ganhando não se mexe, mas imagine se o Lula se dedicasse mais às onomatopeias do que às metáforas: A situação do Irã pof!, O Palocci catapluft! Seria bem ilustrativo. Talvez até mais popular, como ele sempre quis, e uma carta na manga para 2010. Sem falar dos jornais que publicariam “sons” pela primeira vez.
Do outro lado do ringue vem Aécio ou Serra. E enquanto a oposição vai fazendo análise sintática, Lula leva no gogó e conquista o povo que o entende. Foi o que sempre faltou: o uso do idioma do povo. Se tudo continuar assim, apesar das crises alternadas no Senado e na Câmara, nada vai mudar tão radicalmente. Capaz de dar PT (Partido dos Trabalhadores) outra vez. Aí sim os demais vão bater pé pela reforma política – já está na hora.
Até lá, aos poucos vamos conhecendo a Dilma. Quem sabe ano que vem ela apareça com metáforas, onomatopeias, hipérboles, e apresente um novo estilo literário ao Brasil. O discurso dos outros já conhecemos... Hunf!
Fico imaginando as próximas eleições. Dilma Rousseff, que vai contar com o apoio de Lula, usará novas metáforas? Diz-se que em time que está ganhando não se mexe, mas imagine se o Lula se dedicasse mais às onomatopeias do que às metáforas: A situação do Irã pof!, O Palocci catapluft! Seria bem ilustrativo. Talvez até mais popular, como ele sempre quis, e uma carta na manga para 2010. Sem falar dos jornais que publicariam “sons” pela primeira vez.
Do outro lado do ringue vem Aécio ou Serra. E enquanto a oposição vai fazendo análise sintática, Lula leva no gogó e conquista o povo que o entende. Foi o que sempre faltou: o uso do idioma do povo. Se tudo continuar assim, apesar das crises alternadas no Senado e na Câmara, nada vai mudar tão radicalmente. Capaz de dar PT (Partido dos Trabalhadores) outra vez. Aí sim os demais vão bater pé pela reforma política – já está na hora.
Até lá, aos poucos vamos conhecendo a Dilma. Quem sabe ano que vem ela apareça com metáforas, onomatopeias, hipérboles, e apresente um novo estilo literário ao Brasil. O discurso dos outros já conhecemos... Hunf!
30 de jun. de 2009
Enquanto houver peixe...
(ou 'Conto pra foca dormir')
Toda manhã João Roberto entrega folhetos no centro de Porto Alegre. Do outro lado da rua ele vê o prédio antigo do jornal Correio do Povo. João Roberto decidiu ser jornalista. Com quase 20 anos, ele tem muito a dizer. Mas nunca teve a chance nem o dinheiro pra estudar até conseguir entrar na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Recentemente viu no Jornal Nacional que não precisa mais fazer faculdade para ser jornalista. João Roberto ficou contente, vai poder dizer tudo o que sempre quis. E como sempre trabalhou com texto, pelo menos o dos folhetos que traz da gráfica, espera se dar bem – não que jornalista ganhe bem, pelo contrário; ele sabe disso.
João sabe que no Brasil, assim como em outros lugares do mundo, tem direito a falar o que quiser e a pensar como quiser. Mas não tem espaço, não é ouvido – e disso ele reclama. Cansou de mandar cartas para a redação. Enquanto isso, o Jornal do outro lado da rua, a TV, a Rádio, expressam a ideia de alguns e alcançam estados inteiros. Mas João não precisa de tanto, ficaria contente de ser lido só na Rua da Praia.
A diferença se dá no dinheiro. Jornalismo virou atividade econômica. As empresas lucram, acham espaços para os anúncios até sobre as fotos, e pagam mal a quem escreve e faz o jornal. Jornalistas, muitos com diploma na mão – ou guardado num envelope – ficam desmotivados e não escrevem mais do mesmo jeito. A categoria não é tão unida, muito menos regulamentada. João não está preocupado com isso, sua atividade, pelo menos por enquanto, ainda é “humanista”. Um jornalismo como dever social.
Em parceria com o sujeito da gráfica a Folhinha da Praia saiu. Um anunciozinho daqui, outro dali, e, paga-se a impressão. Sem falar que anúncio de jornal dá mais dinheiro que folheto pra distribuir na rua.
— João Roberto, jornalista. Muito prazer.
Os dias passam e a Folhinha ganha leitores, distribuição gratuita – os anúncios dão conta disso; além de pagar a impressão João ainda tira uns trocados no fim do mês. E ele escreve bem, até recebe um olhar desconfiado dum editor da Grande Mídia – que continua puto por não precisar mais de diploma para exercer a profissão; teme que o salário possa diminuir por causa da concorrência iletrada.
Mas o mercado de trabalho mudou. Tudo muda. João, jornalista, sem cursar jornalismo, é convidado a trabalhar num jornal “de verdade”. Ele recusa: — Pagavam mal porque não fiz faculdade. Estou melhor assim.
João continuou com a sua Folhinha. Largou os folhetos. O editor desconfiado seguiu como editor e seu salário continua igual. O jornal onde ele trabalha continua contratando jornalistas que cursaram faculdade – e exige cada vez mais. A decisão de não exigir o diploma para o exercício do jornalismo fez com o que os jornalistas graduados retomassem o gosto pela profissão e uniu a classe. Voltaram a fazer o que sempre quiseram e continuam conquistando novos espaços. Nos impressos e eletrônicos – até mesmo nos blogs –, vemos agora um jornalismo motivado, com mais informação do que aspas.
E o povo, assim como João Roberto, tem agora seu espaço livre do poder econômico e das estranhas relações da grande mídia. A Folhinha do João também embrulha peixe no fim de semana.
Recentemente viu no Jornal Nacional que não precisa mais fazer faculdade para ser jornalista. João Roberto ficou contente, vai poder dizer tudo o que sempre quis. E como sempre trabalhou com texto, pelo menos o dos folhetos que traz da gráfica, espera se dar bem – não que jornalista ganhe bem, pelo contrário; ele sabe disso.
João sabe que no Brasil, assim como em outros lugares do mundo, tem direito a falar o que quiser e a pensar como quiser. Mas não tem espaço, não é ouvido – e disso ele reclama. Cansou de mandar cartas para a redação. Enquanto isso, o Jornal do outro lado da rua, a TV, a Rádio, expressam a ideia de alguns e alcançam estados inteiros. Mas João não precisa de tanto, ficaria contente de ser lido só na Rua da Praia.
A diferença se dá no dinheiro. Jornalismo virou atividade econômica. As empresas lucram, acham espaços para os anúncios até sobre as fotos, e pagam mal a quem escreve e faz o jornal. Jornalistas, muitos com diploma na mão – ou guardado num envelope – ficam desmotivados e não escrevem mais do mesmo jeito. A categoria não é tão unida, muito menos regulamentada. João não está preocupado com isso, sua atividade, pelo menos por enquanto, ainda é “humanista”. Um jornalismo como dever social.
Em parceria com o sujeito da gráfica a Folhinha da Praia saiu. Um anunciozinho daqui, outro dali, e, paga-se a impressão. Sem falar que anúncio de jornal dá mais dinheiro que folheto pra distribuir na rua.
— João Roberto, jornalista. Muito prazer.
Os dias passam e a Folhinha ganha leitores, distribuição gratuita – os anúncios dão conta disso; além de pagar a impressão João ainda tira uns trocados no fim do mês. E ele escreve bem, até recebe um olhar desconfiado dum editor da Grande Mídia – que continua puto por não precisar mais de diploma para exercer a profissão; teme que o salário possa diminuir por causa da concorrência iletrada.
Mas o mercado de trabalho mudou. Tudo muda. João, jornalista, sem cursar jornalismo, é convidado a trabalhar num jornal “de verdade”. Ele recusa: — Pagavam mal porque não fiz faculdade. Estou melhor assim.
João continuou com a sua Folhinha. Largou os folhetos. O editor desconfiado seguiu como editor e seu salário continua igual. O jornal onde ele trabalha continua contratando jornalistas que cursaram faculdade – e exige cada vez mais. A decisão de não exigir o diploma para o exercício do jornalismo fez com o que os jornalistas graduados retomassem o gosto pela profissão e uniu a classe. Voltaram a fazer o que sempre quiseram e continuam conquistando novos espaços. Nos impressos e eletrônicos – até mesmo nos blogs –, vemos agora um jornalismo motivado, com mais informação do que aspas.
E o povo, assim como João Roberto, tem agora seu espaço livre do poder econômico e das estranhas relações da grande mídia. A Folhinha do João também embrulha peixe no fim de semana.
29 de jun. de 2009
Do ensino de jornalismo para gente nova
É possível, e bem provável, que os que hoje ocupam as salas de aula da faculdade de Jornalismo tenham tido uma formação que não lhes ensinou a pensar. O ensino fundamental no Brasil ainda não forma livres-pensadores – ensina-se mais a crer do que a questionar.
Quando chegam ao ensino médio a realidade é outra: o vestibular. As preocupações com a tão difamada prova duram três anos e então chegam à universidade – por sinal, jovens demais. São considerados jovens demais, porque espera-se que com a idade as pessoas se interessem por buscar o conhecimento – e não só navegar por informações. E então, nas salas de aula, são pessoas cheias de emoção e, às vezes, vazias de razão e de lógica. Estas são questões importantes no jornalismo e como nem todos foram formados com a presença delas, poderão passar por constrangimentos.
Distinguir as variações da história e refletir sobre as verdades apresentadas deve ser natural do jornalista. É mais ou menos como responder a uma questão aparentemente simples: por ser simples na aparência, hesitamos; ao hesitar, pensamentos algumas vezes antes de responder e então, ficamos mais próximos da resposta errada.
Se a lógica fosse natural a resposta assim seria também – sem medo ou preocupações. Essas situações vêm de questões humanas – apresentadas na filosofia, sociologia, antropologia –, muitas delas ignoradas nos primeiros anos do curso, por pessoas jovens demais. Possivelmente por não terem sido estimulados a pensar, buscam o que já está feito. O que leva alguns àquela que podemos chamar de “síndrome do ctrl-c, ctrl-v”.
Após passarem pelas disciplinas de Psicologia, Sociologia e Epistemologia – desde que tenham aprendido de verdade e não apenas presenciado as aulas – deveriam ser estimulados a ler obras que mostrem as versões da realidade e como pode-se conviver com elas. Um bom exemplo e adequado a esta profissão é Como vencer um debate sem precisar ter razão, de Arthur Schopenhauer, pois passarão por situações duvidosas com os mais variados tipos de pessoas. Este e outros clássicos de grandes autores são importantes por mostrarem situações humanas reais e seus temas seguem atualizados. Outros autores como George Orwell e Hunter Thompson – de tempos mais recentes – também são relevantes para se conhecer estilos literários. Porém, estes autores não só apresentavam estilos como também conteúdo em seus escritos.
A questão do conteúdo está diretamente ligada à paixão do jornalista por sua profissão. Por ser passional, pode inconscientemente fugir da neutralidade esperada – da imparcialidade do jornalismo. Bertrand Russell disse em seus Ensaios Céticos que as pessoas são mais passionais que racionais, e, por isso, agem da maneira que agem. Portanto, seria interessante considerar um certo ceticismo no trabalho jornalístico. Um ceticismo realista, diferente daquele ceticismo chato que duvida de tudo.
Russell propôs mais dez mandamentos ao mundo, que podem ser aplicados também ao jornalismo:
1. Não tenhas certeza absoluta de nada.
2. Não consideres que valha a pena proceder escondendo evidências, pois as evidências inevitavelmente virão à luz.
3. Nunca tentes desencorajar o pensamento, pois com certeza tu terás sucesso.
4. Quando encontrares oposição, mesmo que seja de teu cônjuge ou de tuas crianças, esforça-te para superá-la pelo argumento, e não pela autoridade, pois uma vitória dependente da autoridade é irreal e ilusória.
5. Não tenhas respeito pela autoridade dos outros, pois há sempre autoridades contrárias a serem achadas.
6. Não uses o poder para suprimir opiniões que consideres perniciosas, pois as opiniões irão suprimir-te.
7. Não tenhas medo de possuir opiniões excêntricas, pois todas as opiniões hoje aceitas foram um dia consideradas excêntricas.
8. Encontres mais prazer em desacordo inteligente do que em concordância passiva, pois, se valorizas a inteligência como deverias, o primeiro será um acordo mais profundo que a segunda.
9. Sê escrupulosamente verdadeiro, mesmo que a verdade seja inconveniente, pois será mais inconveniente se tentares escondê-la.
10. Não tenhas inveja daqueles que vivem num paraíso dos tolos, pois apenas um tolo o consideraria um paraíso.
Para um novo jornalista, os mandamentos acima serão úteis no dia-a-dia da profissão. Ao lidar com jornalistas mais experientes, por exemplo, busque mostrar a razão de você pensar como pensa – só não tente pensar como eles pensam. Seja um livre-pensador.
Sugestões:
BALZAC, Honoré. Os Jornalistas. Rio de Janeiro. Ediouro, 1999.
DESCARTES, René. Discurso do Método. Porto Alegre. L&PM, 2005.
ERASMO. Elogio da Loucura. Porto Alegre. L&PM, 2003.
FORTES, Leonardo. Jornalismo Investigativo. São Paulo. Contexto, 2005.
NOBLAT, Ricardo. A arte de escrever um jornal diário. São Paulo. Contexto, 2005.
ORWELL, George. Na pior em Paris e Londres. São Paulo. Cia. das Letras, 2005.
RUSSELL, Bertrand. Ensaios Céticos. Porto Alegre. L&PM, 2008.
SCHOPENHAUER, Arthur. Como vencer um debate sem precisar ter razão. Rio de Janeiro. Topbooks, 2003.
THOMPSON, Hunter S. A grande caçada aos tubarões. São Paulo. Conrad, 2004.
VOLTAIRE. Conselhos a um jornalista. Martins Fontes. São Paulo, 2006.
Publicado às 10:03 (-3 GMT) em Curitiba - PR, Brasil
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Educação,
Jornalismo,
Opinião,
Redação
Quando chegam ao ensino médio a realidade é outra: o vestibular. As preocupações com a tão difamada prova duram três anos e então chegam à universidade – por sinal, jovens demais. São considerados jovens demais, porque espera-se que com a idade as pessoas se interessem por buscar o conhecimento – e não só navegar por informações. E então, nas salas de aula, são pessoas cheias de emoção e, às vezes, vazias de razão e de lógica. Estas são questões importantes no jornalismo e como nem todos foram formados com a presença delas, poderão passar por constrangimentos.
Distinguir as variações da história e refletir sobre as verdades apresentadas deve ser natural do jornalista. É mais ou menos como responder a uma questão aparentemente simples: por ser simples na aparência, hesitamos; ao hesitar, pensamentos algumas vezes antes de responder e então, ficamos mais próximos da resposta errada.
Se a lógica fosse natural a resposta assim seria também – sem medo ou preocupações. Essas situações vêm de questões humanas – apresentadas na filosofia, sociologia, antropologia –, muitas delas ignoradas nos primeiros anos do curso, por pessoas jovens demais. Possivelmente por não terem sido estimulados a pensar, buscam o que já está feito. O que leva alguns àquela que podemos chamar de “síndrome do ctrl-c, ctrl-v”.
Após passarem pelas disciplinas de Psicologia, Sociologia e Epistemologia – desde que tenham aprendido de verdade e não apenas presenciado as aulas – deveriam ser estimulados a ler obras que mostrem as versões da realidade e como pode-se conviver com elas. Um bom exemplo e adequado a esta profissão é Como vencer um debate sem precisar ter razão, de Arthur Schopenhauer, pois passarão por situações duvidosas com os mais variados tipos de pessoas. Este e outros clássicos de grandes autores são importantes por mostrarem situações humanas reais e seus temas seguem atualizados. Outros autores como George Orwell e Hunter Thompson – de tempos mais recentes – também são relevantes para se conhecer estilos literários. Porém, estes autores não só apresentavam estilos como também conteúdo em seus escritos.
A questão do conteúdo está diretamente ligada à paixão do jornalista por sua profissão. Por ser passional, pode inconscientemente fugir da neutralidade esperada – da imparcialidade do jornalismo. Bertrand Russell disse em seus Ensaios Céticos que as pessoas são mais passionais que racionais, e, por isso, agem da maneira que agem. Portanto, seria interessante considerar um certo ceticismo no trabalho jornalístico. Um ceticismo realista, diferente daquele ceticismo chato que duvida de tudo.
Russell propôs mais dez mandamentos ao mundo, que podem ser aplicados também ao jornalismo:
1. Não tenhas certeza absoluta de nada.
2. Não consideres que valha a pena proceder escondendo evidências, pois as evidências inevitavelmente virão à luz.
3. Nunca tentes desencorajar o pensamento, pois com certeza tu terás sucesso.
4. Quando encontrares oposição, mesmo que seja de teu cônjuge ou de tuas crianças, esforça-te para superá-la pelo argumento, e não pela autoridade, pois uma vitória dependente da autoridade é irreal e ilusória.
5. Não tenhas respeito pela autoridade dos outros, pois há sempre autoridades contrárias a serem achadas.
6. Não uses o poder para suprimir opiniões que consideres perniciosas, pois as opiniões irão suprimir-te.
7. Não tenhas medo de possuir opiniões excêntricas, pois todas as opiniões hoje aceitas foram um dia consideradas excêntricas.
8. Encontres mais prazer em desacordo inteligente do que em concordância passiva, pois, se valorizas a inteligência como deverias, o primeiro será um acordo mais profundo que a segunda.
9. Sê escrupulosamente verdadeiro, mesmo que a verdade seja inconveniente, pois será mais inconveniente se tentares escondê-la.
10. Não tenhas inveja daqueles que vivem num paraíso dos tolos, pois apenas um tolo o consideraria um paraíso.
Para um novo jornalista, os mandamentos acima serão úteis no dia-a-dia da profissão. Ao lidar com jornalistas mais experientes, por exemplo, busque mostrar a razão de você pensar como pensa – só não tente pensar como eles pensam. Seja um livre-pensador.
Sugestões:
BALZAC, Honoré. Os Jornalistas. Rio de Janeiro. Ediouro, 1999.
DESCARTES, René. Discurso do Método. Porto Alegre. L&PM, 2005.
ERASMO. Elogio da Loucura. Porto Alegre. L&PM, 2003.
FORTES, Leonardo. Jornalismo Investigativo. São Paulo. Contexto, 2005.
NOBLAT, Ricardo. A arte de escrever um jornal diário. São Paulo. Contexto, 2005.
ORWELL, George. Na pior em Paris e Londres. São Paulo. Cia. das Letras, 2005.
RUSSELL, Bertrand. Ensaios Céticos. Porto Alegre. L&PM, 2008.
SCHOPENHAUER, Arthur. Como vencer um debate sem precisar ter razão. Rio de Janeiro. Topbooks, 2003.
THOMPSON, Hunter S. A grande caçada aos tubarões. São Paulo. Conrad, 2004.
VOLTAIRE. Conselhos a um jornalista. Martins Fontes. São Paulo, 2006.
Publicado às 10:03 (-3 GMT) em Curitiba - PR, Brasil
6 de jan. de 2009
Para Curitiba
CURITIBA, PR, BRASIL — Uma tarde de verão no centro da cidade de Curitiba (PR).
4 de jan. de 2009
Chuva pára a 101 no Sul de SC
LAGUNA, SC, BRASIL — Devido às fortes chuvas deste início de ano, trechos baixos da BR-101 entre Laguna e Capivari de Baixo (Norte/Sul) ficaram submersos. Apenas a passagem veículos grandes era permitida.
Publicado às 21:33 (-3 GMT) em Tubarão - SC, Brasil
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