31 de jul. de 2009

A mais perfeita mesmice, não fosse o Gardel

O sol vai se pondo e estou quase em casa. De volta a Tubarão. Nasci nessa cidade do sul de Santa Catarina, no início dos anos oitenta. De lá pra cá muita coisa mudou – mas não nos últimos anos. Foram quase dois anos fora e quando chego vejo as obras ainda atrasadas da BR-101, o excesso de carros na principal avenida da cidade e umas poucas pessoas que ainda reconheço nas ruas.

Uns três mercados, o shopping e o ex-shopping ainda figuram no centro. Nas ruas de cá, malabaristas no semáforo. Disseram-me por aqui que agora temos mais do que o velho nada para fazer a noite, mas a cidade nunca foi da noite – deve ser o mesmo lugar com novo nome. Melhor ir ver de perto – mas sem pressa. Também contaram que houve algumas mudanças na política, desde as últimas eleições. Mas a cidade também nunca foi muito disso. O que me levou a pensar: Se nem os nomes mudaram...

Tudo na mais perfeita mesmice, não fosse o fato de acordar todas as manhãs ao som Carlos Gardel – que algum vizinho colocava por volta das 9h. Um bom modo de acordar. Depois de uns dias de tango, encontrei um novo lugar para morar. No centro, agora com uma trilha mais mecânica – a das construções por perto. Muda-se a trilha e o jeitão da vizinhança. Aqui ainda é a de um bairro residencial de uma cidade pequena. Outra noite um vizinho gritava:
— Ah! Vai chover chumbinho. Cala a boca...

Tudo isso por causa de um pequeno cachorro que não parava de latir do lado de lá da rua. Pobre cachorro, apenas latia naturalmente. Algumas pessoas se incomodam com tão pouco e esquecem o que realmente pode mudar a vida. Com uma vizinhança assim, poderia esperar mudanças significativas para a terra amada e bendita Tubarão?

Quem sabe quando as pessoas começarem a ter acesso às novas culturas ou encontrarem novas identidades – sem esquecer do bom senso e tolerância que faz uma “grande” cidade. “Mas é mais fácil ir embora do que mudar as coisas” – alguns insistem. Mas... mas sempre há espaço para novas ideias, novas cabeças, para amar e mudar as coisas – como na música de Belchior –, e outras canções para se ouvir.

8 de jul. de 2009

O sentido (horário) da vida

As pessoas nascem, comem e enchem as fraldas. Crescem, são educadas – não importa como, são sempre educadas de forma errada; alguém disse isso uma vez. Passam a ser adolescentes, pensam só em sexo e continuam estudando. Chegam à idade adulta, depois de um período de crise entre razão e emoção, e procuram fazer algo útil para o mundo – nem que seja para o seu próprio mundo.

Adultos, percebem que nem todas as crises foram superadas. Alguns fazem terapia, outros pulam da ponte. Se apaixonam, sofrem, ficam felizes e pensam na vida a dois. Pensam em como vai ficar orçamento do lar, em se aposentar pela assistência social, no imóvel financiado na Caixa, numa vida de comercial de margarina.

Até que chegam os filhos. Que nascem, comem, enchem as fraldas, crescem, são mal educados, pensam em sexo, viram adultos, se apaixonam, sofrem, ficam felizes, têm filhos, etc. E começa tudo outra vez.

Agora as coisas se misturam e as gerações entram em conflito, com doses de harmonia. Tudo ao mesmo tempo. Nessas horas o tempo acelera. Sem volta e sem relatividade.

Eis o mistério da fé

Dizem que o paraíso fica lá pros lados da Bahia. Não quero nem imaginar pra onde fica o inferno, mas é capaz de estar no Brasil também. O purgatório, lugar de parada para os que deixaram este mundo e esperam o julgamento final, faliu. O Papa anunciou que esta parada obrigatória para alguns deixou de existir. Não vi a cópia do Divino Fax – firmada em cartório – mas acredito.

E pra ter falido uma instituição tão antiga quanto essa – e olha que já faz algum tempo, nem foi culpa da crise –, ela deve ter sido muito mal administrada. Imagino que os réus que lá esperavam foram todos amparados por advogados brasileiros – nas leis da Terra de Vera Cruz, como lembra o amigo Eduardo Daniel. É possível que todos tenham conseguido habeas corpus e foram esperar no paraíso – céu azul, água de coco e um mar claro e quente do nordeste.

Outros dizem que o mandatário da casa empregou uns parentes e não quis sair de lá nem com vaga assegurada no paraíso. Eis que então o cara lá de cima resolveu chamá-lo pra uma conversa e deu no que deu. Mais uma instituição pública às moscas e gente desconfiada por toda parte. Melhor dizer que acabou mesmo.

1 de jul. de 2009

Um presidente literário!

Desde a campanha para a presidência em 2002 que ouvimos as várias metáforas de Luís Inácio Lula da Silva. São sete anos de um vasto repertório, para todo tipo de situação. Do arroz com feijão na Bahia ao momento crítico que vive o Irã. A grande maioria faz referência ao futebol. Um livro de metáforas presidenciais cairia bem – com prefácio dele, claro.

Fico imaginando as próximas eleições. Dilma Rousseff, que vai contar com o apoio de Lula, usará novas metáforas? Diz-se que em time que está ganhando não se mexe, mas imagine se o Lula se dedicasse mais às onomatopeias do que às metáforas: A situação do Irã pof!, O Palocci catapluft! Seria bem ilustrativo. Talvez até mais popular, como ele sempre quis, e uma carta na manga para 2010. Sem falar dos jornais que publicariam “sons” pela primeira vez.

Do outro lado do ringue vem Aécio ou Serra. E enquanto a oposição vai fazendo análise sintática, Lula leva no gogó e conquista o povo que o entende. Foi o que sempre faltou: o uso do idioma do povo. Se tudo continuar assim, apesar das crises alternadas no Senado e na Câmara, nada vai mudar tão radicalmente. Capaz de dar PT (Partido dos Trabalhadores) outra vez. Aí sim os demais vão bater pé pela reforma política – já está na hora.

Até lá, aos poucos vamos conhecendo a Dilma. Quem sabe ano que vem ela apareça com metáforas, onomatopeias, hipérboles, e apresente um novo estilo literário ao Brasil. O discurso dos outros já conhecemos... Hunf!